O olhar caboclo e sensível de Antonio Siqueira

Texto: Thiago Andrade
Fotos: José Medeiros e Antonio  Siqueira

Retratar o cotidiano de uma cidade de interior e principalmente os seus rostos, a essência do município existir, essa é a missão do fotógrafo Antonio Siqueira – o fotógrafo ribeirinho, como prefere ser lembrado. Com seu olhar caboclo e extremamente sensível ao cotidiano de Rosário Oeste e região, Antonio consegue registrar a alma dos cidadãos.

José Medeiros

Sua paixão pela fotografia começou dentro de casa, seu pai era fotógrafo e sempre pediu auxílio aos filhos nos trabalhos. Apaixonado por artes, Antonio viu na fotografia uma forma de registrar momentos que ficarão guardados na história de vida das pessoas e da cidade.

“As vezes meu pai ia trabalhar, mas deixa uma das máquinas na minha casa, eu aproveitava para fazer algumas imagens. Acabei me afastando por um período de 10 anos da fotografia. Aí comecei a me questionar sobre o que eu sabia fazer de arte, lembrei da fotografia. Então, fui fazer novas fotos e as pessoas gostaram. Com isso, eu comprei uma máquina nova, de filme na época e comecei a fotografar”, relatou.

Autodidata, foi aprendendo tudo o que sabe na base de testes. Não é exagero dizer que a maioria das pessoas da cidade já foram retratadas por suas lentes.

José Medeiros

Mesmo com outra profissão, Antonio é proprietário de uma loja de calçados e confecções, ele não abandonou a vida de fotógrafo. Em frente a sua loja na rua Marechal Deodoro, tem a sua cantiga casa, construção antiga que hoje serve de cenário para retratar o dia a dia de Rosário Oeste. Muita gente já tirou foto no azul da casa 276.

“Já fiz várias fotos aqui, as pessoas chamam de parede azul da Marechal, por conta do nome da rua. As pessoas passam eu faço a foto, quando estou um pouco estressado eu venho pra cá fazer mais fotos e até assalto eu já registrei aqui na agencia dos Correios”, comentou.

José Medeiros

Por ali, passam diversas personalidades da cidade diariamente, tudo é registrado pelas lentes de Antonio. Ele conta ter feito o retrato de coisas que já não existem mais, como o trabalho de dois irmãos que eram sapateiros e viraram ícones da cidade com a Sapataria Corrêa. “Eu tive a felicidade de fotografa-los”, comenta.

Da trajetória ao olhar

Na trajetória como fotógrafo, diversas pessoas marcaram a vida de Antonio e contribuíram para o seu sucesso. Ele lembra que uma dessas pessoas foi um professor de fotografia de nome Dagoberto, que veio do interior de São Paulo para dar aula em uma faculdade de Rosário Oeste. Ele conheceu o trabalho de Antonio em uma exposição local e desde então se aproximou do fotógrafo por ter se identificado com o olhar caboclo. “Todas as fotos que ele achava bonita eu mandava revelar em tamanho grande”, conta.

Depois, Antonio teve a ajuda de Magda Domingues que o ajudou a dar direcionamento à carreira. Depois, contou com a parceria de Berenice Liberali, quem conheceu na Feira Internacional do Pantanal. Juntos fizeram trabalhos que envolviam textos e imagens.

Antonio conta que se indignava com o fato das pessoas conhecerem Nobre, Chapada dos Guimarães e o Pantanal, mas não conheciam Rosário Oeste. Para mudar esse quadro, conseguiu uma exposição aberta no shopping Pantanal, no período da inauguração do empreendimento. Com isso, todas as lojas ainda vazias estampavam a arte do fotógrafo e mostrava Rosário aos mato-grossenses.

Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira

Fotografando sempre as belezas naturais da cidade, sua gente, principalmente o Rio Cuiabá e os ribeirinhos que vivem da pesca. Antonio lembra de fatos curiosos, como no dia em que estava observando o rio e um desses ribeirinhos entrou no barco com uma lança de madeira jogou a isca e com a lança acertou um dourado. Em seguida, o pescador seguiu para um bar, entregou o peixe e tomou uma dose de cachaça.

O fotógrafo ribeirinho preferiu não perguntar se houve uma troca do peixe pela cachaça, preferiu deixar a dúvida. A cena foi reproduzida e é um dos fatos que mais chamaram sua atenção durante a vida toda.

Antonio Siqueira
Antonio Siqueira
Antonio Siqueira

  1. Parabéns Antônio, seu trabalho é excepcional. Deus lhe abençoou grandemente com este talento, do qual você o faz muito bem…Mais uma vez parabéns!! É um orgulho ver esta cidade linda e aconchegante onde morei 14 anos e faz parte da minha infância!!

  2. Parabéns Antônio, seu trabalho é excepcional. Deus lhe abençoou grandemente com este talento, do qual você o faz muito bem…Mais uma vez parabéns!! É um orgulho ver esta cidade linda e aconchegante onde morei 14 anos e faz parte da minha infância, tão bem representada!!

  3. Sensibilidade, leveza e poesia são essas características que refletem nas fotografias desse grande artista, que divulga o cotidiano de uma pacata cidade e seus entornos. Parabéns, Antonio, que você continua nos presenteando com suas imagens.

  4. DAS LENTES DE ANTÔNIO SIQUEIRA SURGE A CIDADE QUE HABITA EM MIM E NA MEMÓRIA DE CADA UM DE NÓS.

    Por Antônio Levino

    Conheço Rosário Oeste como a palma das minhas mãos. Mas a cidade que eu amo não é mais um endereço reconhecível, habita em minha alma como um sonho que se repete toda vez que a reencontro no som da fala dos conterrâneos e nas cores de uma fotografia.

    Nos desvãos da minha memória, onde guardo a lembrança das coisas úteis, junto aquelas que realmente importam e por isso não devem ser esquecidas, ali estão catalogadas as imagens do lugar onde nasci e passei boa parte dos primeiros anos da minha vida, exatamente aqueles que definiram o homem no qual me tornei.

    Lá estão as ruas de paralelepípedos e praças, arborizadas com seus coretos; o velho casario de fachada Kitsh com quintais abarrotados de frutíferas; as escolas que frequentei na infância e adolescência com seus campos de futebol e canteiros destinados as aulas de práticas agrícolas; o poço da Dona Úrsula, a ponte sobre o rio Cuiabá e os portos da Passagem e Larangeiras; o carnaval de rua com batalha de confete entre as tribos de Hélio Martins e Luiz Baliza; a banda de retreta puxada pelo trombone do seu Isaque e os times de futebol comandados pela Sinhá, Diniz e Brandão do Banco do Brasil; o bolo de arroz do seu Batico e os comércios surtidos de Paulo Miranda, Armandinho e Piau; as barbearias do Nhole, Baixinho e Manécão (o Mané sou eu, o cão é a mãe); o cinema do casal Adão e Eva e o Cineclube Municipal do seu Carmino com suas matinês de Django, Trinity e seriado do Flash Gordon; os animais de rua que acompanhavam andarilhos como Dito Preto, Sebastião Oba e Siricó; os estrambelhados tidos como quase insanos Tomatão, Louquinho do Laranjal, Oclécio e Mariada; os invocados Rachid, Lubi e Canhão; os boleiros Roldão, Tchá Tchá Tchá, Zé Pimentão, Waldêz e Chuteirinha; as várias irmandades: Teto, Tingo e Tofe; Jackson, Aparício e Dedê; Lando, Rubson e Toninho; Alberto, Águida, Ana, Anselmo e Antônio Siqueira; Nhanhá, Gonçalo, Cirilo, Agostinho Ana e Rute; as oficinas mecânicas do Zico, Beto e Expedito; a medicina do Dr Orlando e a Odontologia do Dr Antônio e Juca Dentista; a casa de tolerância de Mini-Saia e Cabeça de Boi.

    Pelas ruas por onde andei, com colegas de aula ou companheiros de farra, ainda resistem casas que já eram velhas há meio século atrás, nas quais agora habitam os meus contemporâneos, já velhos e totalmente ambientados ao casulo de seus antepassados.

    Nessa Rosário Oeste existe um morrinho que brota em plena rua onde eu morava, separando a parte antiga da nova cidade que brotou nos anos de 1970.

    A velha Rosário Oeste pode ser delimitada pelas ruas da Linha e do Campo, formando um pequeno sítio urbano que se estende da estrada da ponte até a praça Manoel Loureiro e para além desta, até a Rua da Barra que margeia a mata ciliar do Rio Cuiabá.

    A parte velha da cidade acaba nos limites da Avenida Arthur Borges e da Rua Nova que fica no sopé do morrinho e a partir de onde a urbe se projetou para além dos limites do Ribeirão, fazendo aparecer o bairro da Rodoviária com vias e moradias que brotaram nos dois lados da BR 364 no sentido da cidade de Jangada por um lado e no sentido de Nobres por outro lado.

    Rosario Oeste, pequena e conservadora, parece eternamente vocacionada para a tradição que gera um apego inquebrantável nos seus filhos, que preservam festejos que servem de motivo para o retornos regulares.

    São festas que animam encontros e reencontros principalmente nos bares, que numa terra de boêmios, além das conversas banais, se prestam a conspiração política como o Senadinho, onde o Coronel Renato Nasser reunia os seus correligionários para traçar estratégias que nunca deram em nada e o Bar do Roque, um cafofo lúgubre que gostávamos de fantasiar como um covil de subversivos a tramar contra a ditadura que se instalara no pais em 1964 e só terminaria em 1985.

    As vezes eu me pego a perguntar: qual personagem haveria de representar a mística desse lugar?

    Zé João, o negro maranhense, dublê de pastor presbiteriano e professor de inglês que veio a se tornar advogado? Talvez sim. Pelo estilo elegante e didática implacável que me faz lembrar da sua primeira lição que consistia em recitar o texto até poder repetir automaticamente: “I’m happy because i belong a very nice gang. They are six and our names are: Jim, Jack, Meg, Tom, Paul and yself”.

    Na minha opinião o personagem símbolo da nossa cidade seria o suisso Benjamin, autodenominado Tarzã. Era um multiprofissional bizarro que ganhava a vida pintando fachadas de lojas e concertando bicicletas e relógios, enquanto não estava cortando cabelos ou empalhando animais.

    O homem era tão miserável que se alimentava de polenta e só comia carne uma vez por mês, ocasião em que acordava de madrugada para percorrer todos os açougues da cidade, até comprar o pedaço mais barato que encontrava e depois se plantava em frente a sua casa abordando todos que passavam para se queixar do preço praticado pelos comerciantes taxados por ele como ladrões gananciosos.

    Outro personagem, bem mais novo e talvez até mais importante pelo seu ofício é Antonio Siqueira. Herdeiro do comércio da família que desenvolveu o poder de arrancar do fundo da alma, nos instantâneos capturados pela sua máquina fotográfica, as cores exuberantes de um sem número de situações, pessoas, coisas, animais, paisagens e movimentos que expressam tudo que somos por conta da cidade que nos moldou.

    Duvido que alguém possa mirar uma fotografia de Antônio Siqueira sem ser surpreendido pelo inusitado.

    É até difícil imaginar que alguém pudesse retratar de modo tão genuíno o que não poderia ser descrito sem o recurso das imagens.

    Por tudo isso eu penso que as fotografias de Antônio Siqueira, mais do arte são documentos vivos, que registram os traços indeléveis do rosariense típico, que tenderiam a se perder no tempo, até desaparecer na paisagem.

    Veja por exemplo a série fotos retratando homens vestidos como vaqueiros, ao lado de suas montarias de duas rodas da marca Monarque ou Caloi.

    Por sua originalidade e valor histórico, não é pequeno o efeito que a fotografia de Antônio Siqueira provoca.

    Lembro de ter visitado em 1999, no museu nacional do Rio de Janeiro, uma exposição alusiva a obra “Tristes Trópicos” do antropólogo Levi Strauss. Entre imagens de indígenas e de auxiliares de sua expedição pelo interior de Mato Grosso, havia um retrato em preto e branco da Pensão da Dona Pequenina, localizada na rua da Barra em Rosário Oeste.

    Naquela ocasião, emocionado, eu passei quase uma eternidade admirando cada detalhe do reboco da fachada do imóvel que eu conhecera na infância.

    Pois aquela sensação é a mesma que experimento diante de cada imagem capturada pelas lentes de Antônio Siqueira, o arquivista das nossas memórias, artista implacável que penetra em nossa alma para revelar a cidade que habita em nós.

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