sábado, 21 de julho de 2018

Expressões de carnaval

Amor e delírio nas ruas da cidade

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Texto e Fotos: Ahmad Jarrah

Dizem que o ano só começa agora, depois do carnaval, tamanha a sua naturalidade no calendário brasileiro. Não há quem passe indiferente ao feriado prolongado, seja pra brincar nas ruas, viajar ou mergulhar em uma cachoeira, sempre há uma razão para curtir o período. Entre os programas disponíveis, decidimos acompanhar o carnaval popular em Cuiabá, tropeçar em personagens no meio da multidão nas ruas, tentar captar um pouco desse espírito.

  

O percurso começa na Orla do Porto, durante o show do Olodum, que estava completamente tomada de gente. A diversidade do público era explícita, classe social, gênero e cores se misturavam num caldeirão cultural em plena ebulição. Mesmo aqueles com pouco molejo tinham seus corpos levados a balançar com o movimento da multidão. Diziam que eram 30 mil pessoas, mas pareciam 100 mil. Havia uma clara dificuldade em se fotografar em meio à gente, pouco espaço, pouca luz e muito movimento.

Dar uma volta nas redondezas, respirar um pouco e estimular a percepção. Logo alguém aparece em frente à câmera, posando com uma lata de cerveja. Allana é travesti, antes de ir para o trabalho no Zero, em Várzea Grande, passou na orla para dançar um pouco no show. Totalmente desinibida e extrovertida, ela logo começou a se expressar para as lentes antes de partir para o trabalho. A expressão do amor era latente, encontramos mais alguns personagens noite afora.

Becos do amor

A Praça da Mandioca também foi palco do carnaval de rua, além de cotidianamente ser berço do samba na capital. Não estava tão sufocante como no Porto, assim os registros foram ganhando contorno com sensualidade, beleza e toda a naturalidade que o carnaval tem.

   

O ambiente mexe com os sentidos, as cores são um deleite ao olhar, o som balança o corpo, aromas e sabores de amor exalando em todo lugar. Encontramos a mesma diversidade e troca de afetos, às vezes a loucura cedia espaço ao prazer.

Na descida da rua, uma rainha da bateria com sua netinha, que fazia questão de se vestir como a avó e reproduzir os mesmos movimentos. Era uma das componentes dos quatro blocos que faziam a festa da noite, entre eles, o Bloco “Vem Oyá Jejé” que homenageia pelo segundo ano o colunista social e carnavalesco Jejé.

A noite avançava adentro e outros personagens foram surgindo, com narrativas mais contemporâneas e que em muitos momentos é perceptível a presença do tradicional e moderno no misto carnavalesco.

        

No Bloco do Glitter, as “fantasias” são o “look” diário, não apenas expressão da liberdade no período carnavalesco, mas da luta por ela no cotidiano da sociedade, a resistência da sua afirmação de existência. O amor livre, a diversidade de gênero, os corpos, uma atmosfera envolvente e sedutora.

 

Ao final, restou o caminho de volta pra casa, com a certeza de viver uma experiência antropológica.