terça-feira, 25 de setembro de 2018

Amor para além dos muros

Um dia incomum no cotidiano de uma penitenciária feminina

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Texto e fotos: Ahmad Jarrah

Entrar em um presídio sempre mexe com nosso âmago, é uma posição desconfortável que leva a uma infinidade de questionamentos pessoais e sociais, abala ou reforça convicções, possibilita muitas interpretações.

Há um imaginário em torno do que seja a vida em um presídio que leva a um processo de desumanização, desenha um misto de barbárie, malevolência e perversidade que estampa as capas de jornais e atemoriza os “cidadãos de bem”. Buscava para esta série fotográfica uma perspectiva mais humana, que fizesse parte do cotidiano dos detentos. Recebi um convite para conhecer a Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, durante um evento com visita surpresa de familiares.

No início parecia algo trivial, mas é emocionante observar os elos rompidos pelo enclausuramento serem reatados, conectados mesmo que temporariamente. É comum que muitas mulheres sejam abandonadas pela família nos presídios, e esta conexão consangüínea com o mundo exterior é fundamental no processo de reeducação.

Todo dia de visitas é a mesma ansiedade, me confessam, a expectativa da chegada de alguém, os filhos, a mãe, muito raramente um companheiro. Na minha frente uma família se abraça, enquanto outra mulher aguarda inquieta seus familiares que não chegarão.

O direito ao encontro com a família foi concedido apenas para as alas que possuem bom comportamento, mas o sentimento de irmandade levou uma das mulheres até um pequeno buraco por onde a água escorre através de um muro que divide as alas. A sua filha batia na parede chamando pela “tia”, amiga de sua mãe, que não pôde participar do encontro. Compartilharam um saco de pipoca e alguns doces pela fresta.

A troca de afetos entre várias gerações, os olhares marejados de lágrimas, as mãos que agarram as roupas e não querem soltar nunca mais, a firmeza do laço feminino da maternidade, a ingenuidade explícita onde todos só esperam a violência, o amor tatuado na pele como uma sentença, mais uma motivação para sair dali o mais breve possível.