quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Uma imersão nos escombros da pasta base

Fotógrafo registra histórias de dependentes químicos que vivem na Ilha do Bananal

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Texto e Fotos: Ahmad Jarrah

Foi-se o tempo em que minhas lembranças daquele lugar tinham outras referências, eu chegava a pé e subia para trabalhar no segundo andar de um centro comercial no Morro da Luz. Naquela época, não poderia imaginar que haveria uma promessa de VLT cortando a Ilha do Bananal, tampouco que levaria o local a ser tomado por uma ocupação de grande incomodo social, o consumo da pasta base.

O prédio do antigo centro comercial foi transformado em escombros e passou a abrigar centenas de dependentes químicos que circulam pela região fazendo do local uma ilha para o consumo de drogas, diante de uma letargia do poder público e da sociedade que a enxerga com repulsa.

Como toda ilha, há um distanciamento daquela população marginalizada pela sociedade, pelas famílias e pelo poder público, por não conseguirem resistir ao vício na pasta base de cocaína, uma versão popular do crack. O sentimento de abominação e medo da sociedade em geral e todo o contexto particular despertaram meu interesse em retornar para fotografar.

Logo na chegada, percebo que a sala em que eu trabalhava estava ocupada por uma mulher e dois homens seminus, tinha energia elétrica puxada com gato do poste e era uma espécie de suite, com tapete, lençóis e cama. Eu não podia fotografar ali, disseram, e me expulsaram escada abaixo.

Pelo corredor encontro um rapaz que me explica que agora a galeria é dividida em três áreas “de cima, do meio e de baixo”. O meio é o corredor que liga o grupo que ocupa o andar de cima da galeria e o outro que vive em todo subsolo, que é a maior parte do prédio utilizada.

Quando muitos viam a câmera, logo se distanciavam, até que um rapaz sentado em uma escada decide conversar. Enquanto o fotografava, dois policiais à paisana passam de maneira brusca por nós, que amontoávamos na escada. Seguiram com semblante fechado, apreensivos à procura de alguém.

Prosseguimos em direção ao subsolo, algumas pessoas circulam tossindo pelos corredores deteriorados, “tuberculose”, afirmam. À primeira vista, aquele local hostil estava tomado por dezenas de doentes, dependentes que necessitam urgente de uma intervenção da saúde pública.

Na chegada ao subsolo somos avisados de que eu não poderia fazer imagens da mãe. Cada vez mais ficava claro que ali viviam como uma família, uma comunidade que tinha Tereza Valdevina Ramires, de 50 anos, como a mãe que cuidava de dezenas de adictos que viviam ali consumindo a pasta base.

Mãe da Ilha

Logo que desci, avistei Valdevina fazendo as unhas como quem está com a manicure na área de casa. Havia posto numa mesa um café da manhã, ao lado uma TV ligada e aos fundos uma cama e outros armários e utensílios domésticos. Estávamos em sua “casa”, e com o andamento da conversa os registros foram sendo permitidos.

Valdevina conta que mora ali há três anos com seu filho que é alcoólatra. Ela caminha com dificuldade ao mesmo tempo em que conta que precisa fazer uma cirurgia no joelho. Meses depois de conhecer sua história, recebo a notícia de que ela havia sido presa acusada de ser a chefe do tráfico de drogas no local.

Caso André e a crise moral

Durante a visita à Ilha do Bananal, uma das pessoas que fotografei me despertou a atenção. Era um rapaz que ficava o tempo todo agachado de cócoras, empoleirado em um breu que tomava conta de um canto do grande salão no subsolo. Ele me acompanhava com olhar ressabiado, conversando com outros usuários que fumavam pasta base. Me aproximei para conversar, no começo reticente e à medida que eu me diminuíamos a distância ele ia se abrindo um pouco mais, sem trocarmos uma palavra.

Perguntei se poderia retratá-lo e, depois de um tempo num silêncio cabreiro, me respondeu “só se você me der 10 reais”. Nem refleti para dar a resposta, que seguiu automática, “só tenho cinco”, era tudo que eu trazia na carteira. Ele aceitou, mas colocou a condição de que só poderia ser uma única foto.

Alguns meses depois, acompanhando as notícias na redação do jornal, percebo que um morador de rua havia confessado ter assassinado uma idosa na região da Ilha do Bananal e coincidia com a época em que eu havia feito minha segunda visita ao local. Ao ver as imagens da delegacia, reconheço o mesmo rapaz que havia retratado usando pasta base.

Na época da visita, ele havia acabado de assassinar uma idosa, de maneira covarde. Ela era vizinha do prédio em escombros, caridosa, ajudava muitas vezes os viciados e pessoas em situação de rua que por ali passavam.

André Luiz da Rocha havia solicitado ajuda a Izabel Queiroz Brandão, de 76 anos, em decorrência de um ferimento. Ela prontamente o atendeu, como já havia feito tantas outras vezes, e quando se virou para buscar o medicamento, foi rendida por André que a estrangulou.

Os policiais à paisana que haviam passado por nós, quando conversávamos na escada, estavam em busca do assassino de Izabel que estava ali, no subsolo, sendo fotografado por cinco reais.

Começava minha crise moral que se estendeu através de muitos debates e que até agora não alcançou uma conclusão. Mas compreendi que a solução desse problema social não passa nem pela romantização da miséria, e nem pela exclusão social e criminalização dos dependentes. Há de ter um caminho do meio.