sexta-feira, 25 de maio de 2018

Sem idade para recomeçar

A arte popular de Lupércio dos Anjos

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Texto: Thiago Andrade
Fotos: José Medeiros

O ócio que a terceira idade pode gerar assusta muita gente, a dependência de uma aposentadoria é outro item que pesa aos idosos. Na busca de fugir desses paradigmas, seu talento poderia ter passado batido e surgiu da necessidade básica de ter luz em casa. Lupércio dos Anjos faz lamparinas artesanais com pinturas que carregam traços desenvolvido por ele. As peças fazem sucesso na Europa, destino certo de parte do que é produzido.

Morador de Nobres, cidade de Mato Grosso conhecida por suas belezas naturais, Lupércio começou a desenvolver sua arte quando ainda morava em Cuiabá, no bairro Liberdade, nos anos 90. Nascido de invasão, o local não tinha energia elétrica. Para sair do sufoco, Lupércio fez algumas unidades pra ele, logo os vizinhos viram e também pediram a lamparina.

Depois, Lupércio começou a fazer cestinhas com zinco, até que o feito chegou ao conhecimento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MT), que o procurou para contribuir com a comercialização das peças. Para ajudar no aperfeiçoamento das peças, seu Lupércio fez dois cursos. Então, registrou firma e seu trabalho já é reconhecido pela entidade.

O traçado em seus trabalhos é tão marcante que certa vez, Lupércio pediu ajuda a um amigo para dar conta do serviço. O amigo fez parte da pintura e Lupércio o acabamento. Mas, as peças foram recusadas. Do episódio, Lupércio tirou a lição da importância e grandiosidade do seu trabalho. “Tive que raspar tudo. Peguei a lixadeira, limpei tudo e pintei de novo”, disse dando risada ao lembrar do fato.

Para dar mais inspiração, Lupércio tem um livro de pintura chinesa e usa os traçados e cores nas suas peças. “O mais difícil foi fazer as peças, a pintura eu aprendi bem rápido. Já as peças eu fui desenvolvendo, além das lamparinas, faço cestas, cruz, cata-vento, matracas e outras coisas, chegando a 51 peças”, conta.

Orgulhoso, Lupércio conta que já fez três vezes peças para a apresentadora Ana Maria Braga. Também conta com muita alegria das ligações que recebe do exterior com pedidos de encomendas de países como Alemanha e Itália.

Sem identificação

O passado de Lupércio é incerto, o artesão não consegue dizer com precisão, por exemplo, em que ano ele nasceu. Segundo ele, é entre 1941 a 1946. Entretanto, foi registrado como nascido em 1934, tudo isso porque precisou tirar a Certeira de Reservista, mas a idade era um impedimento.

Mas não foi só a idade de Lupércio que mudou, seu próprio nome foi alterado e ele conta isso com muita tristeza. “Meu nome era Izupério José dos Anjos, mas disseram que era muito feio e na hora de registrar colocaram Lupércio, eu não gostei e sempre tentei mudar, mas como não tenho outro documento eu nunca consegui”, conta.

Nascido em Seabra, no estado da Bahia, ele conta que o nome errado já o atrapalhou na busca por sua verdadeira família. Segundo ele, um pedido foi feito a apresentadora Ana Maria Braga para ajudar a encontrar os parentes, sem sucesso. Para ele, o nome que “não foi o de batismo de pai e mãe” atrapalhou na localização da família.

Hoje, Lupércio/Izupério mora sozinho em Nobres, além de fazer seu trabalho, seu outro compromisso semanal é o culto da Igreja Adventista, da qual faz parte há muitos anos.