sábado, 21 de julho de 2018

Vida de mulher, sonhos de menina

Conheça a história de meninas que fugiram da violência

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Texto: Maria Angélica Oliveira
Fotos: José Medeiros

Era um final de tarde chuvoso em Poconé, no coração do Pantanal matogrossense, quando Mirele tomou a decisão. Ligou para o Conselho Tutelar e arranjou tudo. A mãe estava bêbada e não viu quando ela e os três irmãos menores saíram. Numa esquina, esperaram a chegada dos assistentes sociais, que os levaram para o internato Colégio Nazaré.

Mirele tinha 12 anos e estava cansada de ser adulta. Chegava da escola e tinha que fazer o almoço para os irmãos. Chamava a polícia quando o pai batia na mãe até ensanguentar o chão da sala. Quando tudo parecia se acalmar, tentava convencer os dois a frequentar as reuniões dos Alcóolicos Anônimos.

Aos oito, Daniela* esperava o dia amanhecer, acordava a irmã menor, Cássia*, e corria para a casa dos vizinhos. Lá, tomava banho para ir à escola, na periferia de Várzea Grande. Na volta, apanhava da mãe, que não queria que as filhas estudassem, e ganhava hematomas.

Fugir para a escola por poucas horas era um alívio. Melhor do que ficar em casa, onde era abusada pelo tio. Ninguém na família acreditava naquelas histórias horríveis que Daniela contava. A avó materna a ameaçava, queria que ficasse quieta. Mas, um dia, chegou uma psicóloga na escola. A mulher gostava de ouvir as crianças. A vida de Daniela mudou.

Junto com a irmã menor, foi levada para um abrigo em Cuiabá. Dali, surgiram vagas na Casa Cotia, uma fazenda às margens da rodovia que leva a Poconé, abrigo para meninas vítimas de violência.

Ficaram ali uns oito anos. Cresceram com direito a escola, refeições em horários marcados e cama confortável. Brincavam soltas com pássaros e capivaras.

No ano passado, uma tia materna apareceu em Poconé para levar Cássia – já uma moça – para Várzea Grande. E, sabe-se lá como, a Justiça autorizou. Da casa da tia, no Jardim Eldorado, a adolescente logo foi parar na casa da mãe. Aos 14 anos, acabou grávida do tio, o mesmo que anos antes havia abusado da irmã.

Foi pressionada a abortar, mas não quis. Acabou voltando para Poconé e se juntou com um rapaz, que registrou o bebê como se fosse dele. Agora vive num barraco de madeira escuro e quente com uma cozinha e dois cômodos, sem portas. No outro quarto, moram parentes do agora marido.

Quando conversamos, Cássia omite a história de abuso. Fala do pai do filho como se fosse um namorado que conheceu no bairro. Não demonstra revolta, nem parece ter noção de que, mesmo que tenha consentido fazer sexo, foi ludibriada e estuprada.

Pergunto se ela, agora que é mãe, acha que é uma mulher feita. A resposta vem rápido. “Eu me considero criança mesmo. O povo daqui não pode me ver brincando com as crianças de dez, 11 anos, que falam que é criancice minha. A tia do meu marido não gosta que eu brinque porque eu já sou mãe”, diz.

Cássia diz que tem vontade de ser médica veterinária quando crescer, cuidar de bichos como aqueles com que convivia na fazenda, quando foi feliz. Mas, por enquanto, quer mesmo é continuar brincando de pega-pega e esconde-esconde.

Se a vida de Cássia parece ter tomado um rumo triste, a de Daniela e Mirele parece ter sido salva. E graças a outras mulheres dali de Poconé, voluntárias que as acolheram nas instituições e nas próprias casas. As duas sabem onde querem chegar: fazer uma faculdade, ter uma casa só delas e casar. Nessa ordem.

*nomes fictícios porque são menores de idade