Resíduos humanos

Texto e Fotos: Ahmad Jarrah

Por todo lado que o ser humano se espalha, deixa um vestígio que torna inegável a sua presença. Essas pegadas não se apagam com o vento, muito menos com a chuva. São objetos de valor para toda uma classe de trabalhadores marginalizada, em sua maioria, e que desempenham um importante papel social para o qual o poder público até hoje é ineficiente. O nosso contato com o lixo se esgota ao descartá-lo no cesto. A partir daí, os resíduos se conectam com centenas de catadores informais de rua que coletam o que lhes tem valor imediato, até ser levado por caminhões ao aterro sanitário, popularmente conhecido como Lixão.

As sobras das sobras chegam para alimentar centenas de famílias que sobrevivem deste trabalho, se embrenhar em meio ao lixo para encontrar tudo que possui algum valor. A nuvem de urubus pairando no ar marca a localização, a intensidade do odor a proximidade. As montanhas de lixo se erguem uma babilônia de resíduos, onde humanos moscas, cachorros e urubus disputam espaço e alimento no aterro sanitário de Cuiabá, capital de Mato Grosso. Grandes canos se destacam na insalubre paisagem, exalando o gás produzido pela decomposição do lixo.

Alguns caminhões que chegam despertam mais disputa que outros, são os descartes de alimentos dos grandes supermercados. Alguns quilos de mortadelas, queijos, linguiças e dezenas de garrafas de refrigerante, tudo vencido. O motorista desempregado Vanildo comemora os dois pacotes de linguiça que encontrou, “essa é a do Sérgio Reis!”, se referindo à qualidade do produto. Está vencida há 21 dias, “mas não tenho medo não”. Apenas um pano para limpar o chorume que encobre um pacote, uma faca para cortar e o refrigerante acompanhando, logo um grupo começa a lanchar ali mesmo. Contam que já acharam de tudo lá, óculos, roupas, tênis, celular, até jóias e dinheiro.

A catadora Madalena conta que ninguém escolheu estar ali, mas foram levados a essa condição pelo curso da vida, “não é fácil isso aqui, essa é a vida que eu lutei pra não ter ela, mas chegou nesse ponto”. Junto com ela, está seu filho que a ajuda no trabalho. Eles escolheram ser catadores independentes, ao invés de se associarem à uma cooperativa de reciclagem. Lucimara, representante dos catadores, explica que os cooperados ganham apenas um salário mínimo, enquanto fora da cooperativa conseguem arrecadar até dois mil reais.

Aos 48 anos de idade, Lucimara deixou o artesanato para se dedicar à coleta no aterro “estamos trabalhando com o resto todinho da cidade, mas aqui eu ganho mais do que com artesanato. Tem gente que está em um emprego bom e não valoriza. Aqui não temos nem água para beber. Tem gente que está no ar-condicionado e fica reclamando. Eu convido a passar um dia aqui com a gente. Para muitos isso aqui é vergonha, eu jamais senti vergonha. Hoje os engravatadinhos estão presos, esses daí é que tem que sentir vergonha”.

Lucimara possui uma conexão com o lugar, criou seus filhos ali, que a ajudavam a tirar o sustento da família. Na época em que eles eram menores, os catadores eram alvo de discriminação “eles preferiam os urubus à gente, nos chamavam de morta-fome e falavam ‘pode passar por cima desses morta-fome aí!’, pra nós”, se referindo à orientação da empresa aos operadores de máquinas que trabalham compactando o lixo. São muitos tratores e retroescavadeiras se movimentando de um lado a outro o tempo todo, cercados pelos catadores.

“Eu tenho cinco filhos, mas perdi um para esse lugar”, conta emocionada ao lembrar de Reginaldo Aparecido Pereira, o Naldo, que morreu esmagado por uma retroescavadeira quando tinha 23 anos de idade. “Eu sinto a presença dele aqui, ele tá aqui!”. Depois, outra tragédia levou Lucimara à depressão, a morte dos pais.

“A única coisa que restou para mim foi o lixo mesmo. Se alguém me perguntar se eu tenho alguma alegria, alguma esperança, a resposta é não! O que me faz acordar todos os dias e vir aqui são meus filhos e netos, mas se não fosse por eles não teria mais forças e já teria desistido, pois esperança de uma vida boa não tenho mais não”.

Apesar de um TAC firmado entre o Ministério Público e a Prefeitura em 2014, para a criação do Plano Municipal de Gestão de Resíduos Sólidos de Cuiabá, na prática pouco foi realizado para solucionar o problema. Além de não incorporar os catadores ao trabalho de reciclagem, como previa o Termo de Ajustamento de Conduta, a Prefeitura de Cuiabá ainda retirou todos os trabalhadores do local, acabando com a única fonte de renda de dezenas de famílias sem dar qualquer contrapartida em troca, apenas descartando-os.

A sobrevivência das famílias poderia ser garantida em condições dignas de trabalho, como resume Lucimara “se houvesse coleta seletiva nem existiriam catadores, pois pegamos materiais que não eram para ser aterrados mesmo, mas é por falta de conscientização da população e do poder público. Se houvesse educação não seria desse jeito, eu penso assim. A partir do momento que tenha a coleta seletiva, nós não precisaremos estar aqui, pois isso aqui não é vida, é muito sofrimento”.

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