quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A saga da água no Pantanal

Fotógrafo acompanha projeto sustentável que facilita o acesso de comunidades à água

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Texto e fotos: Ahmad Jarrah

É corrente um incorreto entendimento de que no Pantanal há uma natural abundância de água. O que a primeira vista pode parecer verdade, é desconstruído à medida em que adentramos a região e conhecemos o cotidiano das famílias que residem no campo. Dentro do município de Cáceres, em Mato Grosso, apenas a vinte quilômetros da fronteira com a Bolívia, existem vários assentamentos rurais que a cada período de seca sofrem com o abastecimento de água. Além disso, a própria água disponível na região, é muitas vezes imprópria para o consumo humano pela existência de todo um biossistema repleto de micro-organismos que mantêm o equilíbrio natural do ecossistema.

No assentamento Agrovila Nova Esperança, os alunos da Escola Estadual 12 de Outubro passaram por muitas dificuldades até um engenhoso e sustentável projeto facilitar o acesso à agua: a coleta de água da chuva por meio de um sistema que a escoa do telhado, através de calhas, até grandes cisternas para serem armazenadas. A iniciativa partiu do engenheiro agrônomo do INCRA, Samir Curi, em parceria com o Ministério Público e a Secretaria Estadual de Educação.

O abastecimento da água para o consumo é feito por meio de grandes poços perfurados à mão, em um sítio situado no assentamento vizinho, e percorre 12 quilômetros por canos até chegar aos alunos. Porém, a quantidade de água não era suficiente para manter a horta, um projeto de educação ambiental que envolve alunos, técnicos e professores no cultivo de verduras orgânicas que são utilizadas na merenda escolar. Atualmente plantam alface, coentro, salsa, cebolinha, rúcula, couve, rabanete, batata-doce, abóbora, quiabo e uma infinidade de legumes e verduras que dividem espaço com um pomar de bananas, acerolas, jabuticabas, mangas, goiabas, cajús, côcos…

A água da chuva possibilitou o projeto, conta Marquinhos, técnico da escola que cuida da irrigação da horta, que aproveitou o grande repositório para criar lambaris, ampliando a sustentabilidade do projeto, uma vez que os pequenos peixes limpam o lodo da água e comem os insetos.

Outro sistema também foi implantado na escola Nossa Senhora Aparecida, no assentamento Sapiquá, onde existem duas grandes cisternas com capacidade para 100 mil litros cada. Nunca mais a escola teve problemas com abastecimento de água, conta a gestora da escola Gleice Benedita.

 “muitas pessoas acham que por ser escola do campo, nós temos fartura de água e não é bem assim. Essa cisterna é um presente para a comunidade, principalmente quando chega o tempo da seca, em que ficamos mais de três meses sem chuvas. Antes do projeto, já chegamos a paralisar as aulas por quinze dias por falta de água”.

Há três anos, a agua da chuva é utilizada na limpeza da escola, nos banheiros e na horta. A água é tratada com cloro e outros produtos, antes de ser utilizada e o processo de coleta da chuva foi incorporado de maneira pedagógica no cotidiano de professores e alunos, formando uma nova geração atenta a princípios ambientalmente sustentáveis.

Barraginhas

A iniciativa de armazenar água da chuva, de maneira sustentável, não ficou apenas nas escolas, mas adentrou os assentamentos com um projeto simples, porém fundamental para o abastecimento de água, a criação de barraginhas. São pequenas barragens que aproveitam o desnível do solo, por onde escorre naturalmente a água da chuva, e a conservam durante todo o período da seca.

São utilizadas principalmente para abastecer o gado de leite e os pequenos animais.

Gilmar Ayala, o proprietário beneficiado, conta que já pretende ampliar o projeto para garantir mais água, uma vez que relata a dificuldade dos moradores em conseguirem água na região:

“na época em que nós viemos para o assentamento aqui, em 1999, não tinha nada de água, o INCRA que fornecia um caminhão pra nós e a gente ia buscar a água a mais de 12 quilômetros e trazia para dividir de casa em casa pro pessoal aqui, pra nós sobreviver, porque quando a gente entrou aqui era crítico mesmo de água”.

Gilmar conta que a barraginha devolveu inclusive a água para um antigo poço, que já havia secado, pois ela se infiltra pelo solo, previne contra a erosão e ainda alimenta nascentes e lençóis freáticos “é bom pra terra e bom pra gente”.

A sustentabilidade ambiental tem sido fundamental para o desenvolvimento sustentável das comunidades, tanto do ponto de vista social, como econômico e cultural. Uma nova geração de crianças passa a crescer guardando esses princípios e percebendo o meio ambiente como um aliado para garantir a sobrevivência das famílias, sem agredir o ecossistema, garantindo que a vida possa continuar a fluir.