terça-feira, 19 de junho de 2018

Inhamor: dos utensílios da cozinha à coreografia do cotidiano

Série retrata espetáculo que questiona padrões sociais estabelecidos sobre a mulher

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Texto: Thereza Helena
Fotos: Bruna Obadowski
O que regula a geografia do corpo?

Thereza Helena se apropria da cozinha, dos utensílios mais simples e da coreografia do cotidiano para narrar o enfrentamento de uma mulher obesa com as convenções sociais do copo. Convida os espectadores à mesa enquanto manipula um inhame e os demais ingredientes da receita de um pão. Suja as mãos e partilha uma transformação ancorada no universo feminino. A história deságua na areia úmida do mar, em um misto de enlevação e sublimação somente possível através da experiência intimista, de plateia reduzida, favorecendo o olho no olho e o fruir delicado de que Inhamor é tecido.

Este é o Inhamor.

   

Do processo criativo

Inhamor é o ponto de encontro de várias experiências vividas pela atriz: suas urgências artísticas instigadas durante a Oficina da Honestidade, ministrada em 2015 pelo dançarino e coreógrafo Jorge Alencar em Cuiabá; sua iniciação no círculo de mulheres do sagrado feminino; a mudança alimentar, com a transição para o vegetarianismo. A pulsão inicial foi a de colocar em pratos limpos questões que percebeu não serem apenas suas: a opressão do corpo e do comportamento na vida da mulher, o incômodo gerado pela normatização dos padrões sociais que investem na ditadura do vestir, do comer, do fazer e do dizer.

A insatisfação impulsionou o formato do trabalho, que aconteceria durante a preparação de uma receita, se aproveitando da experiência da atriz com os recentes trabalhos de manipulação de objetos. Assim levou para a cozinha, palco da peça, a alocasia (conhecida popularmente como inhame), o alimento da fertilidade. Desse ponto em diante as relações foram investigadas no sentido de celebrar sua humanidade e feminilidade, e a dramaturgia foi se desenhando de forma linear e vagarosa, a partir de muitos ensaios.

Inhamor é, como todo espetáculo autoral, uma investigação dos anseios que moviam a atriz na época da concepção e que seguem movendo agora. A dramaturgia se transformou, muitos parceiros de estrada contribuíram e o incipiente ganhou corpo. Inhamor é a forma mais contundente que Thereza Helena enxerga, hoje, a potencialidade de transformar o mundo através da arte cênica, oferecendo uma fatia ao mesmo tempo metafórica e literal do universo feminino.