sexta-feira, 25 de maio de 2018

Cuiabá de todos os santos

Série documenta ritual da Lavagem da Escadaria em Cuiabá

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Texto: Bruna Obadowski
Fotos e vídeos: José Medeiros

Como parte das comemorações que abrem a tradicional Festa de São Benedito, pela primeira vez na história foi realizada a lavagem da escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Capela São Benedito, por remanescentes de quilombolas e representantes das religiões afrobrasileiras. Arcabouço do sincretismo religioso, o Brasil tem suas raízes miscigenadas ainda flageladas pelo preconceito e intolerância, assim o ritual simboliza a paz, a felicidade e a purificação.

Às margens do córrego da Prainha, a Igreja, que foi construída entre 1725 e 1730 pelas mãos de escravos, recebeu quase trezentos anos depois, a primeira lavagem das escadarias e a presença do centenário quilombola Antônio Mulato, com 112 anos de idade, que acompanhou a cerimônia. Os tambores e as canções religiosas embalavam o percurso pelas ruas do centro histórico até a chegada na igreja.

A presença feminina no ritual é muito intensa, são elas quem carregam os vasos, a água, as flores e entoam os cânticos, abençoam as pessoas com água de cheiro. As vestes são ricas em detalhes, as cores azul e branco se sobressaem e somam ao céu, iluminado pelo característico sol cuiabano. O sentimento é de paz e serenidade, que é potencializado a cada gesto da cerimônia.

 

A energia emanada provocava emoção que era traduzida pelas imagens. As religiões afrobrasileiras de berço mato-grossense, historicamente marginalizadas, retornavam para onde seus antepassados gravaram seus registros, retomando o protagonismo que lhes era impedido, impostos à uma condição subalterna. A beleza dos movimentos que resplandecia durante a lavagem da escadaria era carregada de uma dimensão política que não passou despercebida e motivou debates que demonstraram o quanto ainda é preciso lutar contra o preconceito e a intolerância, reforçando a importância e a potência da cerimônia que pretende ser realizada anualmente.

O ritual se finda de forma poética, com homens e mulheres lavando até o último degrau da escadaria. A água escorre carregando as impurezas, limpando a tristeza, abrindo caminhos para a felicidade, para o respeito pleno entre as pessoas. A cerimônia foi promovida pela Associação Umbandista de Mato Grosso, Federação Nacional de Umbanda e dos Cultos Afro Brasileiros e Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de Mato Grosso.