domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sem direito de sonhar

Famílias passam a viver na insalubridade após desapropriação de condomínio em Cuiabá

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Texto e  vídeo: Bruna Obadowski
Fotografias: Bruna Obadowski e Emanoele Daiane
De longe vejo uma criança brincando com os pés na lama. Paro e observo atentamente por vários minutos. É uma mistura de água da chuva com o esgoto. Ele pula e volta para trás várias e várias vezes incansavelmente na tentativa de não tocá-la. Frustrada. Não há como não tocar a lama e o esgoto que tomam conta e cortam a rua. Ele volta então para trás, pega sua motoca cor de rosa e tenta, mais uma vez, atravessar. Desiste e, por fim, atravessa com os pés no esgoto carregando sua motoca na cabeça.

Pode parecer pouco, quase nada para muitos, mas essa é a representação de mais um dia no cotidiano de famílias que foram obrigadas a deixar suas casas para viver às margens de um córrego cujo a insalubridade toma conta. Longe de ser um ano comemorativo nas suas várias possibilidades, Cuiabá chega nos seus 300 anos com mais uma ação que mutila a humanidade dos que mais necessitam de políticas públicas.

No último dia 06, cerca de 20 famílias foram despejadas de seus lares durante uma operação de reintegração de posse no Residencial Jonas Pinheiro 3, tudo acompanhado pela prefeitura de Cuiabá. A ação foi concebida e autorizada após a solicitação da empresa responsável pela construção do residencial. Para além dos meios legais, questionáveis segundo os advogados, não há razão alguma que justifique a permissão de deixar qualquer criança na insalubridade, sobretudo, por aqueles que deveriam preservar e promover os direitos dos cidadãos, condizente com o Estado democrático de direito ao qual vivemos hoje no Brasil.

Bruna Obadowski

Entre as 20 famílias despejadas do condomínio, uma delas é a de Edlaine, 40 anos. Ela e seus três filhos – 5, 9 e 11 anos, respectivamente – moravam no residencial há cerca de dois anos. Edlaine é a representação de muitas mulheres brasileiras, cujo fardo pautado no patriarcado e no machismo estrutural, a estimulam e obrigam por conta das construções sociais, a seguir sozinha com a lida da família, seu sustento e seus cuidados, mesmo que sem muitas condições econômicas para tal. Hoje, Edlaine vive de bicos fazendo e vendendo roscas de batata e, segundo ela, o despejo só fez piorar ainda mais a situação, pois perdeu toda a sua clientela.

Bruna Obadowski

Para a além da problematização da moradia, uma questão cada dia mais grave no Brasil – somente em Cuiabá o déficit habitacional atinge cerca de 50 mil pessoas, é possível reconhecer e problematizar também a invisibilidade social a qual Edlaine e famílias como as dela são submetidas cotidianamente. Essa situação provoca um grande paradoxo em torno da invisibilidade social. Quando despejados são invisíveis espalhados em seus solitários percursos, mergulhados em suas fraturadas singularidades. Porém, se tornam gritantemente visíveis aos olhos do capitalismo quando ocupam espaços que deveriam ser deles por direito, por meio de políticas públicas efetivas para a população.

Bruna Obadowski

Emanoele Daiane

Segundo Edlaine, a prefeitura de Cuiabá chegou a oferecer três meses de assistência, seria um aluguel social. “O que eu faria depois de três meses? voltaria para as ruas?”.

Edlaine vivia em uma casa de favor antes de ir morar no Residencial Jonas Pinheiro 3. Segundo ela, seria a concretização de um sonho, que mais um vez, se esbarra na problemática do déficit habitacional. “Não estava roubando, matando ou mutilando a dignidade de ninguém, estava buscando o sonho da casa própria”.

São seus filhos que  brincam em frente à sua nova moradia, agora no bairro Serra Dourada. Na nova casa, cedida por um morador do bairro, não há muito mais que alguns utensílios que a família vem ganhando nos últimos dias desde o despejo. Não há outro lugar para brincar, além da cama e da rua, onde não há asfalto, tampouco tratamento de esgoto, iluminação ou água encanada. Nem na rua, nem em casa. Nenhum serviço público de direito.

Além do déficit habitacional e da invisibilidade social, na semana que dois documentos importantes dedicados à proteção infantil estão fazendo aniversário – são 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Da Criança e 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança – é importante refletirmos como nossas crianças estão sendo tratadas, sobretudo, pelo poder público. Somente na família de Edlaine são três crianças, certamente com pelo menos um dos direitos fundamentais sendo violados. 

Bruna Obadowski

Bruna Obadowski

Bruna Obadowski

Bruna Obadowski

Na casa não há banheiro para as necessidades fisiológicas, tudo é improvisado no canto do pequeno cômodo. Não há dentro de casa qualquer proteção que isole dos ferros, da lama e das madeiras, tudo é de chão batido, o que deixa o interior da casa ainda mais insalubre, sobretudo, para o filho menor que tem problemas de saúde.

Bruna Obadowski

Emanoele Daiane

Aqui a brincadeira mascara e esconde a falta de possibilidade de se morar e se viver com o mínimo de dignidade. A televisão e os saltos no esgoto são manobras para se esconder o visível: a dor visceral de uma mãe cujo as possibilidades de proporcionar aos seus filhos uma vida digna, é quase nenhuma, é quase nula com o empurrão da desumanidade dos que estruturam apenas praças de concreto pela cidade.

Edlaine segue morando na casa doada por um morador na busca de uma vida mais digna e humana. Seus filhos frequentam a escola cotidianamente. Ela está vivendo de doações. Aos que quiserem colaborar, a redação da Lente se coloca à disposição para compartilhar o contato.