A FÉ DE FRANCISCA

Texto: Bruna Obadowski e Santigo Santos
Fotos e Documentário: Henrique Santian

Que ficar em casa é a recomendação todo mundo já sabe, mas o que fazer nesses dias de quarentena? Em meio à pandemia do Covid-19, artistas, documentaristas e até mesmo plataformas de streaming estão liberando produções de forma gratuita, para entreter  as pessoas, diminuindo assim a possibilidade de exposição e, consequentemente de contágio em massa do novo coronavírus.

Para compartilhar com o mundo toda fé, resistência e sabedoria para este momento, o documentarista mato-grossense, Henrique Santian, não titubeou e seguiu o mesmo caminho de coletividade, disponibilizado no último sábado (21) o documentário “A fé de Francisca”. O documentário, que segue aberto para livre acesso online até o dia 27 de março, narra a história da benzedeira Francisca, Vó Chica, como é carinhosamente conhecida.

O documentário, captado pelo olhar artístico de Santian, é um curta-metragem que homenageia em vida a benzedeira Francisca Correia da Costa, 104 anos, nascida na região de Lixeira, Lagoinha de Baixo, zona rural de Chapada dos Guimarães. Vó Francisca é mãe de 12 filhos, parteira desde os seus 10 anos de idade, e tem um reconhecido trabalho na cura pela fé e pelas plantas do cerrado.

Sejamos resistente neste momento. Como aprendizado, carrego os ensinamentos de Francisca e os compartilho com todos o poder que a fé e arte podem ter neste momento.

O documentário é uma ode à religiosidade, à valorização da esperança e espiritualidade em meio aos tempos sombrios e incertos que vivemos. A humildade da protagonista, sua pluralidade com a religião e o seu altruísmo é inspirador. Trata-se de mais um exemplo de vida e sabedoria para refletirmos no tempo que nos está disponível.

Assista! Valorize a cultura, o cinema e as artes.

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Na terra que nascem as raízes, que mergulham as solas rachadas de vó Francisca, pra cá e pra lá em sua casa, pelos recônditos verdes do cerrado, diante do seu altar de muitos, santos e anjos.

 A benzedeira, raizeira e parteira, nascida em Lixeira, quilombo de Lagoinha de Baixo, zona rural de Chapada dos Guimarães, se dedica ao trabalho de cura desde os 10 anos de idade. Às vésperas de completar 105, segue incapaz de cessar a atividade que definiu sua rotina e configurou uma vida de dedicação ao outro. 

 É da sensibilidade da brisa morna que rodeia os pés da mesa, as cadeiras, que ronda as quinas das paredes e

 se debruça nos vãos das janelas pra observar a fumaça espiralada de um café que esfria, que nasce o trabalho de Henrique Santian.

O fotógrafo, amigo da vó, desenvolve um trabalho de imersão afetiva nascido da admiração: deixa que a personagem se mova através das lentes como se move pra catar um chinelo, pra separar o feijão do almoço, pra coçar os olhos. Benzendo, rezando, fumando seu cachimbo, olhando pra rua de sua poltrona.

A coreografia ensaiada pelo tempo veste um sorriso largo nessa mulher negra, quilombola, mãe de 12 filhos e madrinha de uma multidão de desconhecidos que buscam a intérprete de palavras e imagens de outra esfera, e sua bênção. Um vislumbre desse universo de devoção, um recorte de proximidade se desenha nas fotos e no documentário de Santian, espécie de altar afetivo a transportar vó Francisca e sua existência iluminada.

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