Fotógrafo Izan Petterle revela as Paisagens do Pantanal em chamas

Texto e Fotografias: Izan Petterle
Edição: Bruna Obadowski

Diferente das outras queimadas que vi no Pantanal em outros anos, agora foi um incêndio de proporções bíblicas, em muitos lugares vi o solo completamente calcinado. Nas pontes de madeira que pegaram fogo, vi os longos e grossos parafusos de ferro da estrutura ficarem retorcidos por consequência da altíssima temperatura a qual foram submetidos. Parece-me improvável que alguém tenha uma resposta para saber quais serão as consequências e os impactos sobre esse riquíssimo, porém frágil bioma. Além da flora calcinada, o Pantanal virou um crematório a céu aberto da vida animal.

A sensação que eu tenho é que jogaram uma bomba atômica de mil megatons sobre o Pantanal. É a única imagem que me vem à cabeça. Rodamos mais de 80 km, entre os km 60 e km 140, sentido Porto Jofre, logo após um incêndio que calcinou os dois lados da estrada e que só posso descrever de forma metafórica. Impossível mensurar o número de animais que morreram instantaneamente ou  sucumbirão a ferimentos ou doenças ao longo das semanas ou meses.

A Estrada Parque Transpantaneira, que liga Poconé a Porto Jofre, foi criada pelo decreto nº. 1.028 de 26 de julho de 1996. De um berçário de animais de todas as espécies, foi transformada em um cemitério a céu aberto. No Km 130 desse infame mausoléu, é perceptível o que deixa todos em estado de luto: a perda irreparável desse santuário único da natureza mundial.

Os animais no Pantanal em chamas

O Pantanal é sinônimo de bicho, é um dos maiores centros de reprodução de todas as Américas, praticamente toda a fauna brasileira está representada nesta região. O tuiuiú, ave símbolo do Pantanal, faz ninhos nos Ipês, como esse que está pegando fogo sob uma Lua de sangue. É uma espécie de apocalipse da fauna e da flora dessa região, Pantanal Norte de Poconé, até pouco tempo, um dos maiores santuários de vida selvagem do mundo.

Esse bezerro teve as patas queimadas e não vai sobreviver por falta de assistência veterinária, os urubus já sabem disso. Essa imagem triste e real simboliza o abandono ao qual o Pantanal está submetido nesse momento, durante o maior incêndio florestal de nossa História.

Com exceção dos bombeiros e de alguns carros de órgãos ambientais, que pouco podem fazer para conter o avanço das chamas, a ausência do Estado é avassaladora. Mesmo com a ajuda de voluntários que aqui estão dando o melhor de si para ajudar animais silvestres e domésticos que estão feridos, a situação é desesperadora.

Araras-azuis tentam encontrar um lugar seguro para pousar em meio a densa fumaça das queimadas no Pantanal de Poconé, após seu habitat ter sido devastado pelas chamas.

O tuiuiú é a ave símbolo do Pantanal, seu enorme ninho é feito de galhos de arbustos secos, construído em “piúvas” como essa que está prestes a ser destruída pelas chamas. É imensurável o número dessas árvores e ninhos que foram devastados pela intensidade desses incêndios, todas elas já passaram por inúmeras queimadas ao longo de suas vidas, tendo sobrevivido a todas.

É evidente a desolação desse pantaneiro frente a sua impotência para apagar esse fogo, que queimou por horas nas margens da estrada-parque Transpantaneira, obviamente sem ninguém equipado para ajudar a debelar esse foco de incêndio, que veio de muito longe, pulando rios e estradas e se propagando de forma incontrolável e impossível de ser apagado depois de chegar nessa magnitude.

Os vaqueiros do Pantanal

Em busca dos personagens que vivem nas fazendas que foram queimadas, mais um dia se estende entre as queimadas e as inúmeras tentativas de luta pela vida da fauna, da flora e dos que vivem no Pantanal mato-grossense.

O dia amanhece na Fazenda Santa Felicidade entre poeira e fumaça. Os vaqueiros do Pantanal reúnem a tropa para campear o gado e mantê-los em segurança longe dos focos de incêndio, que vem de muito longe, de forma incontrolável, pulando estradas e rios.

Eles lidam com a tropa que estava alongada nas invernadas ao longo da rodovia Transpantaneira. Os incêndios acabaram com as pastagens, é necessário levá-los para outros lugares onde possam se alimentar. O cavalo de montaria já estava há meses sem montar, são animais bravios, mesmo sendo domados, resistem às primeiras tentativas de montar.

Buiú, um amigo pantaneiro que conheço há 12 anos. Domador de cavalos, vaqueiro e laçador de boi bravio alongado nas cordilheiras, que conhece o Pantanal como ninguém. Um dos heróis anônimos nessa luta contra esse trágico incêndio florestal, gente sistematicamente preterida pela mídia e que nunca tem voz nas discussões ambientais. Experimentem dizer para ele, um defensor da terra em que vive, que os pantaneiros são os responsáveis por colocarem fogo em sua própria casa.

Correndo entre uma alameda de ipês, antes do amanhecer, o vaqueiro Rafael Florentino, foi um dos que ajudou na luta para apagar os incêndios no Pantanal.

Os pantaneiros estão atônitos por essa tragédia, nunca tinham visto nada parecido. A sensação é de uma espécie de luto coletivo, a consternação é geral. Nunca tinha visto o Pantanal tão seco como está agora, nem quem aqui vive. As lagoas e corixos não existem mais em sua grande maioria. As mudanças climáticas são os principais fatores que agravaram terrivelmente esse incêndio generalizado que devasta o Pantanal. O regime de chuvas que alimenta esse ecossistema, que vem da Amazônia pelos chamados rios voadores, não tem mais a intensidade que tinha.

Mais um amanhecer com a cortina de fumaça densa das queimadas. Assim se passam dias no Pantanal. Antônio Satyro alimenta os animais que não tem mais o que comer no Pantanal.

Por incrível que pareça, ao contrário da imagem romantizada que muitas pessoas têm de profissionais da fotografia documental, estamos aqui por conta própria, sem receber nenhum tipo de apoio de revistas ou jornais, nem que seja para ajudar a divulgar o trabalho que estamos desenvolvendo a duras penas. Essa é uma atividade monástica para quem acredita no poder da fotografia como ferramenta capaz de melhorar o mundo.

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