Navegar é preciso

Texto e fotos: Attilio Zolin

Para quem mora no norte do Brasil, na região Amazônica, navegar é a opção mais barata e comum de se deslocar entre uma cidade e outra. Os navios transportam de tudo: pessoas, carros, materiais de construção, frutas, cereais, animais… De tudo mesmo. Camarotes com ar condicionado podem ser alugados pelos viajantes que querem mais privacidade, porém a grande maioria das pessoas viajam nas redes.

Em agosto de 2016 viajei por 5 dias de barco, fazendo uma rota entre Santarém – Itaituba – Santarém e Gurupá – Macapá – Belém. No meio do caminho, eu e minha namorada Carina, fomos parando em diferentes pontos para registrar imagens de projetos socioambientais apoiados pelo Fundo Socioambiental CASA.

O trecho entre Santarém e Gurupá é bem tranquilo. O grande navio de aço balança pouco nas águas do Amazonas. Nas paradas entre uma cidade e outra, adultos e crianças embarcam para vender marmitas, frutas e outras guloseimas. É sempre bom ficar atento com os pertences, principalmente quando o barco para. Não há muito controle sobre quem entra e sai.

O nascer do sol no Amazonas é um espetáculo a parte.

Da cidade do Gurupá, deixamos o navio. Pegamos carona em uma lancha pequena para visitar a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Itatupã-Baquiá. A lancha, apesar de moderna, é pequena em relação as ondas que se formam no rio, a cada onda sofremos uma pancada. A viagem dura algumas horas, e Pedro Tapuru, gerente da Reserva, nos guiou entre o labirinto de Ilhas alagadas que formam a região. Em alguns momentos, a agitação do grande rio nos dava a sensação de estarmos em um mar revolto. Pedro reclamou dos efeitos dos impactos em sua coluna.

No meio do caminho, uma outra lancha se aproxima de nossa. Tapuru mantém uma distância segura e nos alerta sobre a presença de piratas na região e que devemos ser cautelosos com a aproximação de estranhos. De qualquer forma, nossa lancha era mais potente, e a aproximação deles seria difícil. Mais tarde descobrimos que era um barco de comício, era época de eleição e os candidatos visitam as comunidades para pedir votos.

Na Reserva, somos muito bem recebidos na casa do Presidente da Associação local, o Palheta. A casa de Palheta é uma palafita enorme, muito bem construída e bonita. Todos os dias as água do rio sobem e descem com influência das marés. Não há terra firme. Eu fico pensando: Onde as crianças daqui jogam futebol? E percebo que a relação destas pessoas com o rio é algo muito mais profundo do que eu poderia imaginar.

No fim da tarde, as crianças brincam na beira do rio, enquanto outras tomam banho, com shampoo e sabonete, ali mesmo na frente da casa. A água do rio é meio marrom, mas o banho não foi nada mal. Se não tivessem me contado histórias sobre o tal do candiru e piranhas, talvez eu teria relaxado mais.

Ao anoitecer, Palheta liga o gerador a diesel para iluminar e também para assistir televisão, uma grande tela plana ligada a antena parabólica. Assistimos o jornal e novela. O gerador é ligado apenas 3 horas por dia, sempre no mesmo horário. O custo do combustível na região é altíssimo, um litro de gasolina chega a custar mais de R$ 5,00. A energia solar tem se mostrado promissora na região.

A região Marajoara é grande produtora de açaí e podemos ver as plantas por todos os lados nas margens do rio. Fonte de muitas vitaminas, o açaí é consumido em todas as refeições, geralmente acompanhando os pratos salgados como peixe e camarão, inclusive na merenda escolar. Palheta diz que quando não tem açaí “é como se eu não tivesse comido nada, não enche a barriga”.

No outro dia acordamos cedo para gravar entrevistas e depois do almoço partimos para Macapá. Essa foi a parte mais tensa da viagem, as ondas estavam realmente enormes em relação a nossa pequena lancha, chegando a passar por cima dela algumas vezes. Infelizmente tive que guardar a câmera por segurança neste momento, por isso não tenho fotos para comprovar.

Depois de uma noite em Macapá, embarcamos novamente no Porto de Santana com destino a Belém, nosso último trecho. O navio vai cheio de mercadorias mais uma vez e também passageiros. No último andar, um cantor solitário com seu teclado comanda a trilha sonora da viagem tocando sucessos do brega. As pessoas o assistem cantar mas não chegam a dançar.

Este navio, diferente dos outros até então, não para em nenhum momento entre Macapá e Belém, e o mais incrível é que isso não impede o embarque e desembarque de passageiros e mercadorias, tudo é feito com o navio em movimento. Durante toda a viagem, inclusive a noite, outras barcos menores emparelham ao nosso navio para que alguém suba a bordo ou então para carregar cargas de açaí. O navio apenas diminui um pouco a velocidade e tudo ocorre com a maior naturalidade. Mais uma vez vejo como a relação destas pessoas com o rio é natural e prática, algo que para nós seria uma grande aventura, na Amazônia é só mais um dia comum.

No meio do caminho algo me chama a atenção, começo a ver os passageiros arremessarem sacolas plásticas no rio. Lá embaixo, crianças se arriscam em pequenas canoas, em meio as ondas geradas pelo nosso navio, para recolher as sacolinhas no rio. Em um momento posso contar cerca de 10 canoas na água. Um senhor me explica que é tradição os viajantes levarem roupas e brinquedos paras as crianças que moram isoladas. O barco não reduz em nenhum momento e eu fico preocupado com o perigo destas pequenas canoas se aproximando do grande navio em velocidade.

Pelo caminho vemos balsas carregadas de madeira, gado, minério, e contêineres.

De repente, surge após uma curva do rio, lá no horizonte, uma floresta de prédios. Centenas deles se erguendo as margens do rio, algo que não combina muito com a paisagem até então. Chegamos a Belém! Poder experimentar e registrar um pouco da vida nesta região do país foi incrível. Na Amazônia, os rios são as estradas, celeiro, parque de diversões e muito mais. A vida nesta região do planeta é muito próxima a natureza, e a natureza nos mostra quão grande e generosa ela pode ser. Que continue grande e generosa durante muitos e muitos anos! Temos muito que aprender.

 

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