A morte da Baía de Chacororé, uma tragédia anunciada

A Lente visitou a Baía de Chacororé para registrar a situação calamitosa deste berçário do Pantanal, principal local de desova e reprodução de peixes da região, que sofre com uma seca jamais vista. A região, que deveria ter 11 mil hectares alagados, perdeu quase a totalidade da sua capacidade, e a área que abrigava peixes se transformou em pasto para o gado e cemitério de espécies aquáticas.

Baía toda seca. Onde se passava de baco, hoje se caminha.

Os barcos, que antes navegavam pela terceira maior lagoa do Pantanal, diante da forte seca foram abandonados no local onde encalharam. “Aquela é a régua que mede a altura da água na baía e está completamente exposta. Eu nunca vi uma seca assim antes”, comenta perplexo Dema, morador da região há mais de 30 anos.

As denúncias de crimes ambientais na Baía de Chacororé datam de 2003, de acordo com investigação da Lente, quando houve a primeira notícia da possível morte da Baía. Na época, pesquisadores apontaram que a construção da Usina de Manso influencia o fluxo das águas no Pantanal. Após essa data, houve sucessivas denúncias diante do descaso do Estado para tratar a questão. Em 2007, existiam registros de que a construção de estradas e rodovias estava aterrando os corichos e canais de ligação entre o Rio Cuiabá e a Baía de Chacororé. Em 2010 uma nova denúncia apontou a construção de barragens clandestinas. Mesmo assim, nada foi feito até hoje.

Pequeno mirante no meio da Baía hoje marca a seca de um lugar que antes era completamente alagado.
Policial militar ambiental diante da Baía completamente seca.

A realidade é que vários corixos estão com canais interrompidos e isso está causando o desabastecimento de água na região. Existe ainda uma obra de pavimentação que está em andamento, executada pela Prefeitura de Barão de Melgaço e Governo do Estado, e que já aterrou em mais de um metro desses canais. Outra constatação foi a baixa do nível de água do rio Cuiabá, ocasionada pelo fechamento das comportas da Usina de Manso.

Não se trata, portanto, de uma única degradação recente, mas sim de uma sucessão de intervenções desastrosas no bioma pantaneiro que se acumularam durante as duas últimas décadas. A questão agora é avaliar as dimensões deste impacto e investigar se o problema será permanente ou reversível.

A equipe da Lente acompanhou uma comitiva da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, Juizado Volante Ambiental, PM Ambiental, MPMT e TJMT, liderada pelo deputado Estadual Allan Kardec, de origem pantaneira e um dos defensores do Meio Ambiente no Estado.

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