Com Cacique Raoni, barqueata na Baía do Guajará pede justiça climática e denuncia a Ferrogrão durante a COP30 em Belém 1
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Com Cacique Raoni, barqueata na Baía do Guajará pede justiça climática e denuncia a Ferrogrão durante a COP30 em Belém

Ato fluvial reuniu indígenas, pescadores e movimentos populares de 60 países em protesto contra o avanço do agronegócio, da mineração e de megaprojetos como a Ferrogrão e a exploração de petróleo na Amazônia

Por Bruna Obadowski
Com fotos e apuração de Ahmad Jarrah, enviado a Belém (PA)

As águas da Baía do Guajará, em Belém, amanheceram inquietas. Dezenas de embarcações navegaram lado a lado, conduzidas por povos indígenas, pescadores, quilombolas e militantes do clima, em uma grande barqueata da Cúpula dos Povos, que abriu oficialmente, nesta terça-feira (12), a programação paralela à COP30, em Belém do Pará.

“Garantam que o nosso território seja preservado e respeitado pra gente viver nas nossas terras”, disse o cacique Raoni Metuktire, sentado à proa de uma das embarcações logo após o ato.

Aos 94 anos, o líder kayapó de Mato Grosso, referência mundial na defesa da Amazônia, foi uma figura marcantes do ato, que reuniu cerca de 5 mil pessoas de 60 países, segundo a organização.

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Raoni se pronuncia em Coletiva de Imprensa ao final na Barqueata, em Belém. Foto: Ahmad Jarrah. 12/11/2025.

Durante duas horas, o cortejo fluvial percorreu o trajeto entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Vila da Barca, bairro de palafitas que simboliza as contradições socioambientais da cidade-sede da conferência. O som dos motores se misturava aos gritos de ordem em alguns barcos, transformando o rio em palco e manifesto aos olhos do mundo que estão voltados à COP30.

Faixas denunciavam o avanço do agronegócio, da mineração e das grandes obras sobre os territórios amazônicos. “Onde tem mineração, tem mulheres em luta, dizia uma das faixas. Outras pediam reforma agrária popular e valorização da agricultura familiar, contrapondo-se ao modelo agroexportador que concentra renda e destrói biomas inteiros.

Em tom político e duro, o cacique Raoni disse que continuará cobrando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e contra a Ferrogrão, que atravessa territórios indígenas e áreas de floresta.

“Eu apoio o presidente Lula, mas ele tem que me ouvir. Se precisar puxar a orelha dele pra ele me ouvir, eu farei isso”, disse o líder, em sua língua kayapó, traduzido por Patxon.

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Raoni se pronuncia em Coletiva de Imprensa ao final na Barqueata, em Belém. Foto: Ahmad Jarrah. 12/11/2025.

“O povo indígena precisa ser ouvido”

O jovem Patxon Metuktire, do povo kayapó da região do Baixo Xingu, em Mato Grosso, neto de Raoni, reforça a reivindicação do avô trazida para a COP30.

“Estamos aqui em Belém para participar da COP e afirmar às autoridades, chefes de Estado e empresas que o povo indígena precisa sim de apoio, não só político, mas também no acesso aos financiamentos ambientais. Quem de fato preserva a floresta é o povo indígena. Nosso território é o único que ainda tem floresta em pé dentro do centro do Mato Grosso. Esses trajetos de escoamento da soja, por ferrovia ou hidrovia, trazem impactos sociais e ambientais graves às nossas comunidades”, disse.

Patxon lembrou ainda que a barqueata foi um gesto de união entre povos.

“Foi um momento de estarmos juntos com as populações tradicionais e os outros segmentos sociais. A exportação de soja só promove mais desmatamento e ameaça aos nossos territórios.”

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Patxon Metuktire na Barqueata, em Belém. Foto: Ahmad Jarrah. 12/11/2025.
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Patxon Metuktire na Barqueata, em Belém. Foto: Ahmad Jarrah. 12/11/2025.

Vozes das águas: pescadores e a luta pelo direito de viver do rio

Entre as embarcações, também navegava Vlademira Pimentel Batista, do município de Alenquer (PA), militante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP). Em um dos barcos, ela trouxe para o debate o drama dos pescadores e pescadoras do Baixo Amazonas.

“A nossa pauta é o direito de existir. Estão tirando o seguro defeso, o auxílio-doença, a aposentadoria dos pescadores artesanais”, contou.

Para ela, a barqueata é uma forma de passar a mensagem de forma direta. “ A barqueata é o nosso grito para dizer que não vamos parar de lutar pelos nossos direitos”, desabafou ao jornalista Ahmad Jarrah.

Um manifesto fluvial

Para Pedro Charbel, da Aliança Chega de Soja, a barqueata sintetiza a essência da mobilização: denúncia e anúncio.

“A nossa luta é contra os portos corporativos, as hidrovias e a Ferrogrão, mas também é pela agroecologia, pela comida sem veneno, pela soberania alimentar. A resposta é o rio limpo, com peixe saudável, não o rio contaminado por mercúrio e soja.”

Definida pelos organizadores como um “manifesto fluvial”, a barqueata marcou o início de uma semana de debates e mobilizações da sociedade civil durante a COP30.

“As águas da Amazônia estão trazendo as vozes que o mundo precisa ouvir”, resumiu o equatoriano Líder Góngora, integrante da Comissão Política da Cúpula dos Povos.

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