Noruega, a maior investidora, aportou um valor sete vezes menor do que destinou em 2024 para exploração de combustíveis fósseis
Texto e fotos: Ahmad Jarrah
Cobertura popular da COP30 direto de Belém-PA
Lançado no primeiro dia de Cúpula do Clima em Belém, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) busca adotar a lógica do mercado financeiro ao transformar a floresta em ativo econômico. Diferentemente de um modelo de doações a fundo perdido, como clamam ativistas, povos tradicionais e lideranças ambientais na Amazônia, o modelo privado aplicado ao TFFF visa um retorno financeiro aos investidores, com o “lucro” (o chamado spread), sendo redirecionado para projetos com maior retorno na preservação e manutenção da floresta em pé. Na coletiva de lançamento com o Ministro da Economia, Fernando Haddad, a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva e a Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, o valor anunciado ficou aquém das expectativas.



Noruega, a maior investidora do TFFF, destinará US$ 3 bilhões, valor muito inferior aos mais de US$ 20 bilhões que aplica anualmente na exploração de combustíveis fósseis, como petróleo e gás, sendo uma das maiores potências europeias desses recursos. O país também detém o chamado Fundo do Petróleo (Government Pension Fund Global – GPFG) com investimentos que ultrapassam a casa dos trilhões de dólares. Não bastasse, a Noruega também tem forte presença na exploração mineral no Brasil, contribuindo para a poluição da Amazônia. Empresas norueguesas, como a Norsk Hydro e Hydro Alunorte foram processadas, condenadas e multadas por diversos desastres ambientais em solo brasileiro, especialmente no Pará, estado sede da COP30.

Questionado sobre a Noruega investir mais dinheiro em novas perfurações do que neste fundo, Andreas Bjelland Eriksen, Ministro de Clima e Meio Ambiente da Noruega, declarou que “cada país deve fazer sua própria avaliação, mas obviamente temos um desafio de coordenação global sobre como faremos a transição para longe dos combustíveis fósseis”.

Se soma a essa contradição a França. No município paraense de Barcarena, as empresas norueguesas e francesas são responsáveis por metade dos desastres ambientais ocorridos nos últimos anos. Mesmo o presidente francês, Emanuel Macron, anunciando o investimento de US$ 500 milhões no TFFF, empresas francesas mantem investimentos na exploração energética no Brasil, como a EDF que detém parte em diversas usinas hidrelétricas pelo país, como a UHE Sinop, que acumula diversas acusações de poluição do rio Teles Pires.

Complementam os maiores investimentos no TFFF o Brasil, com US$ 1 bilhão e a Indonésia com mais US$ 1 bi. Mesmo com presença ilustre do Príncipe William em diversas agendas no país, incluindo a COP30, o Reino Unido optou por se manter fora do fundo. Já outro europeu, Portugal, anunciou meros US$ 1 milhão, valor criticado por muitos participantes, principalmente diante do histórico colonial com o Brasil.

O aporte de recursos financeiros para proteção das florestas e povos tradicionais é a grande expectativa de lideranças ambientais da Amazônia. Para Ângela Mendes, presidente executiva do Comitê Chico Mendes e filha do renomado ativista ambiental brasileiro, há expectativa de voltar com soluções para o território, porém há entraves, “sabemos, por exemplo, que os principais poluidores, o norte global, se recusa a assumir esse compromisso, de suas responsabilidades sobre a crise que eles mesmos vem fazendo. A demanda aqui muito é para financiamento, para essas atividades que, dentro dos territórios, se transformam em soluções. A expectativa era essa, que a gente conseguisse esse financiamento climático para avançar nessas soluções. Vamos ver se elas se concretizam. Eu quero muito acreditar!”, declara Ângela com esperança.





