Da redação
Fotos e apuração local: Ahmad Jarrah/Belém-PA
No primeiro dia da COP30, em Belém, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), levou para o pavilhão da Amazônia Legal um desconforto conhecido das negociações climáticas: a tensão entre países desenvolvidos, responsáveis históricos pelas emissões, e grandes produtores agrícolas que concentram desmatamento e mudança de uso da terra. Em sua fala oficial, Mendes afirmou que “espera muito pouco” das tratativas internacionais e voltou a criticar o que considera promessas repetidas e sem entrega.
O discurso ocorre enquanto Mato Grosso se mantém entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do país. Segundo dados do SEEG 2024 (Observatório do Clima), o estado responde por cerca de 12 a 15% das emissões brasileiras, sendo mais de 70% desse total ligado ao desmatamento e às mudanças no uso da terra. O estado também aparece entre os campeões de desmate na Amazônia: em 2024, registrou 1.003 km² de floresta derrubada, o segundo maior índice da região, de acordo com o PRODES/INPE.
Por abrigar três biomas e concentrar parte relevante do desmatamento do país, Mato Grosso deveria ter papel central nas discussões sobre a redução de emissões.
Na sua primeira manifestação na conferência, o governador Mauro Mendes usou seu tempo para citar críticas a repasses internacionais considerados por ele insuficientes e citou nominalmente o presidente francês Emmanuel Macron. “Acabou de ser anunciado alguns poucos bilhões. Vem aqui o Sr. Macron, vem a França, vem alguns outros, coloca um dinheirinho, tira a fotografia e vai embora, e continua tendo as mesmas práticas que sempre tiveram”, afirmou.
Mendes também minimizou o histórico das Conferências do Clima. “Trinta COPs mostraram resultados muito pequenos”, disse, ao afirmar que não vê “seriedade” nas ações de países desenvolvidos. “Não é dinheirinho, não é migalha que vai fazer com que isso mude. Se querem levar isso a sério, tem que ter uma grande mudança comportamental dos países ricos e desenvolvidos”, declarou. “Eu espero muito pouco. Sinceramente, espero muito pouco.”

Em entrevista à Lente dentro da COP30, Mendes ampliou sua fala e reagiu às críticas ao agronegócio. “Por que essas pessoas que criticam o agronegócio brasileiro e de Mato Grosso não criticam a emissão de carbono feita pela queima do carvão, da queima do petróleo e feita pela atividade humana?”, questionou. Ao ser novamente provocado sobre as pressões sobre o setor, lançou um desafio: “Se esses caras acham que o agro faz tanto mal, para de comer carne, para de comer arroz, para de comer óleo de soja, para de comer derivados do milho. Eu quero ver como vão sobreviver. Vai comer xisto?”
O governador também atribuiu parte das críticas ao agro a interesses econômicos estrangeiros. “Isso é lobby. A maioria dessas pessoas está defendendo algum interesse de algum país, de alguma empresa que concorre com o agro brasileiro”, disse. “Como os caras não conseguem competir conosco, eles arrumam meia dúzia de sujeitos para ficar falando mentiras sobre o Brasil.”
As declarações contrastam com a pressão crescente para que Mato Grosso reduza o desmatamento e avance em modelos de produção de baixo carbono. No ambiente da COP, centrado em financiamento climático, adaptação e cortes robustos de emissões, a fala de Mendes destoou das expectativas de convergência.
O painel dos governadores da Amazônia Legal na COP30 reuniu também Helder Barbalho (PA), Wilson Lima (AM), Carlos Brandão (MA) e Clécio Luís (AP). A conferência segue em Belém até 21 de novembro.




