Um banho de esperança

Texto: Jardel Arruda
Fotos: José Medeiros

Quando eu tinha 10 anos, ou uma idade bem perto dessa, sai com uma excursão da minha escola, que ficava em Várzea Grande, para ir tomar banho no Rio Coxipó, lá para as bandas do Coxipó do Ouro, na aniversariante Cuiabá.

Relembrar isso em 2017, 19 anos depois, faz a cena de um garotinho ansioso por entrar nas águas desse rio conhecido por estar sujo, cheio de lixo e esgoto, parece uma piada. Mas naquela época não era assim. Pelo menos não tão assim.

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Com a devida autorização da família, subi naquele ônibus na companhia de mais umas 30 crianças e seguimos em direção a nossa aventura. Quando passava sobre a ponte Júlio Müller, principal ligação entre Várzea Grande e a Capital, prestava atenção pela janela para observar dezenas de garças que dividiam espaço do Rio Cuiabá com pescadores.

Agora, sempre que passo por lá, volto meus olhos para o mesmo lugar e não vejo nem um, nem outro.

Eu não conhecia o Coxipó do Ouro ainda, muito menos o tão famoso Rio Coxipó. Quando desci do ônibus e segui pela fila indiana até as margens do rio, em algum balneário, senti ter adentrado um pedaço seguro da natureza. Coisas de uma criança urbana.

O dia brincando na água, aprendendo a lutar contra a correnteza, a seguir certas ordens para não morrer afogado, foi uma das minhas mais gratificantes experiências infantis.

O tempo passou.

Percorrer as margens do Coxipó e do Cuiabá não revela mais aquelas águas atraentes ao banho. Revela peixes mortos, bonecas, esgoto desaguando “in natura”, garrafas pets, eletrodomésticos, e toda sorte de lixo.

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A cidade cresceu e cada vez mais tomou conta dos rios que a circundam e atravessam. Não de uma forma sustentável. As garças praticamente desapareceram do rio Cuiabá. Quando algum pescador se arrisca nas águas dele ou do Coxipó, divide espaço com lixo.

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O artificial, em forma de dejetos, passou a ser despejado no rio. Pouco a pouco as pessoas perdem a água. Os rios perdem a vida. A cidade, a identidade.

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Cuiabá, com o Coxipó, passa pelo mesmo que passam ou já passaram os povos indígenas. Um processo de violência diante do avanço da urbanização. No caso, a Capital é vítima de si mesma, da falta de planejamento e respeito com suas águas.

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O esgoto é reflexo de uma malfadada política de saneamento, cuja cereja no topo foi uma concessão fracassada. Dinheiro público gasto e quase nenhum serviço recebido.

Aos poucos, os rios que deram a identidade ribeirinha se tornam impróprios aos ribeirinhos. Assim como já se tornaram para outros que, antes deles, já viviam de uma troca feita com a natureza.

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Minha filha completa dez anos em breve, como eu quando fui tomar banho no rio pela primeira vez. Não tenho coragem de levá-la para tomar banho no Rio Coxipó no mesmo lugar que eu tomei. Rio acima, longe da cidade, lá sim.

Ela já não pode usar o rio, dentro da cidade, como eu, há menos de duas décadas, usei, para me lavar e brincar.

Assim como os indígenas, esquecidos.

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Quando passo pelas pontes sobre os rios Coxipó e Cuiabá, não vejo mais garças e pescadores. Mas ainda os guardo em minhas memórias.

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