segunda-feira, 15 de julho de 2019

Da cova à água

A preservação da tartaruga da Amazônia

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Texto: Juliana Menezes
Fotos: José Medeiros / Gcom-MT

Uma vida de dedicação à natureza

Foi em 1979 que Gaspar Saturnino Rocha saiu do Pantanal para uma operação contra desmatamento na região do Araguaia. Na volta, a equipe do IBDF, hoje Ibama, parou na pequena cidade de Ribeirão Cascalheira para tomar um lanche. Foi então que descobriram o comércio de ovos, banha e carne de tartarugas. Era espantoso ver carroças com mais de 30 tartarugas gigantes da Amazônia retiradas da natureza de modo tão predatório. Diante dessa cena depredatória, nasceu uma história de mais de três décadas de dedicação e empenho para preservação dos quelônios de água doce.

De lá para cá, seu Gaspar conta que já ajudou quase 7 milhões de filhotinhos de tartaruga a escapar de gaviões, jacarés, gambás e entrarem na água. Pode parecer muito, mas como tartaruga é um importante alimento para diversos predadores, apenas cerca de 2% desses filhotes chegam à vida adulta.

Gaspar se empenha na certeza de que o trabalho garante não só a preservação do réptil, mas também de todo fauna do rio das Mortes, incluindo grandes felinos, como a onça-pintada, botos e peixes.

E a luta de seu Gaspar pelo meio ambiente atravessa as fronteiras do Vale do Araguaia, ele combateu os coureiros, caçadores de jacaré, no pantanal sul mato-grossense, e atuou no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, além de diversas outras operações em todo estado. Causos que vão desde ter que beber água de corixos usando tecido para filtrar folhas e dejetos de animais até embates com quadrilhas de caçadores.

O técnico ambiental de 65 anos vai às lágrimas toda vez que pensa que sua aposentadoria está próxima e um dia terá que deixar as tartaruguinhas. Com tanta dedicação ao meio ambiente, sabemos que esse dia vai chegar, mas a história de seu Gaspar, que tanto contribuiu com Mato Grosso, já está gravada para sempre.

Da cova à água: a preservação da tartaruga da Amazônia

A casca do ovo se rompe, agora será preciso escavar a cova de areia contra a gravidade. Uma luta contra meio metro de areia até chegar a superfície. Cinquenta centímetros em uma areia fina e pura pode parecer pouco, mas para um filhotinho de tartaruga, já é uma vitória e tanto. Não ter tido o ovo atacado por predadores, já o torna um vencedor.

Até chegar na água, o filhotinho precisa se desvencilhar de gambás e aves e ao entrar no rio, encontra com mais predadores. Pequenos e ainda em fase de adaptação, se tornam presa fácil para piranhas, jacarés, botos e outros animais.

Já adulto, o réptil que pode chegar a pesar até 70 quilos. Pode… Na maioria das vezes, não chega. Em apenas uma noite, uma onça pode matar até cinco tartarugas, que ficam indefesas quando sobem na praia para a desova.

Mas apesar de tudo, o maior predador da tartaruga de água doce ainda é o homem. Há 30 anos, era comum ver carroças com cerca de 50 carcaças. Hoje a realidade mudou, mas ainda é preciso uma fiscalização constante.

Graças ao trabalho dos guerreiros Gaspar Rocha e Felizberto da Costa, mais de 7 milhões de filhotinhos de tartaruga conseguiram alcançar as águas. Os dois vivem para a preservação desse grande berçário no rio das Mortes. Apesar de todo esforço, estima-se que cerca de 2% sobrevive.

Os dois atuam no projeto Quelônios do Araguaia, e para auxiliar no trabalho de preservação, o governo de Mato Grosso criou há mais de uma década a unidade de conservação Refúgio Quelônios do Araguaia.

Preservação para gerações futuras

O sotaque pantaneiro, a fala humilde e a determinação fazem de Felizberto Alves da Costa, o seu Feli, uma pessoa única. Em uma época em que a tristeza o assolava por conta da morte da mãe, ele foi atraído para o Araguaia para ajudar na preservação dos quelônios de água doce, as tartarugas.

O “tchique tchique” da areia, barulho feito quando os pés entram em contato com um areia tão limpa e pura, e a possibilidade de preservar a natureza fizeram com que o pantaneiro se apaixonasse pelo Araguaia. Paixão essa que seu Feli faz questão de enfatizar que não é para ela, mas para nossos filhos, netos e tataranetos.

Atualmente, Felizberto é chefe do Refúgio da Vida Silvestre Quelônios do Araguaia, unidade de conservação criada por Mato Grosso há 14 anos. Ele cuida da preservação da tartaruga da Amazônia e fiscaliza a pesca ilegal dentro da unidade. Os anos de experiência de pescador profissional no Pantanal, em Mato Grosso do Sul, fazem com que seu Feli tenha um olho que nenhum pescador é capaz de enganar: ele sabe exatamente a malha da rede, o tipo de anzol que pegou aquele peixe. Com jeitinho, ele conversa, educa e convence: pesca, somente com muita responsabilidade e fora da área de conservação.

Ele está satisfeito em ter deixado a vida de pescador profissional, que segundo ele não dá camisa para ninguém, para cuidar da natureza. E nós ficamos muito felizes em saber que no mundo há pessoas como Felizberto. Pessoas que sabem que precisamos pensar cada vez mais no futuro das próximas gerações.

Com o trabalho de quase três décadas, onde antes havia escassez de quelônios, hoje os temos de volta aos lagos. Há também relatos de tartarugas sendo avistadas em locais distantes, onde pensava-se que não havia mais a espécie, como no Parque Estadual do Cristalino. E com a preservação desse réptil tão dócil e tranquilo, voltaram os pirarucus, botos e outros animais silvestres.