CHAMA LULA E REVOGA: Povos indígenas “param” COP30 e exigem revogação de decreto e fim da Ferrogrão 1
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CHAMA LULA E REVOGA: Povos indígenas “param” COP30 e exigem revogação de decreto e fim da Ferrogrão


Texto e fotos: Ahmad Jarrah

Após bloquear a entrada da Zona Azul da COP30, em Belém, os povos Munduruku e do Baixo Tapajós se reuniram com as ministras Marina Silva (Meio Ambiente), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e a presidência da conferência para entregar cartas com reivindicações nesta sexta-feira (14). As lideranças exigiram a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que inclui hidrovias amazônicas no Programa Nacional de Desestatização, além do cancelamento da Ferrogrão.

O ato resultou no bloqueio do principal portão da Zona Azul, área diplomática da cúpula. O bloqueio começou às 5h, interrompeu o fluxo de delegações internacionais e levou à mobilização de forte aparato policial. Às 9h, o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, e a diretora-executiva, Ana Toni, foram até o local negociar. Após breve diálogo com as lideranças Maria Leusa e Alessandra Korap Munduruku, Lago afirmou ao Portal A Lente: “Foi pacífico. São um grupo muito organizado. Foi um diálogo muito positivo.”

A declaração, feita enquanto caminhava de mãos dadas com as lideranças indígenas, reflete o esforço diplomático de reconhecer a legitimidade do protesto sem admitir o embaraço causado à engrenagem internacional da conferência.

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Presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, sai de mãos dados com in∂eigenas em direção a parte interna do pavilhão azul para negociação. 14/11/2025. Belém,PA. Ahmad Jarrah.

Reivindicações ocupam a mesa de negociação

Na reunião emergencial com as ministras Marina Silva e Sonia Guajajara, a formalidade típica das COPs desapareceu. As ministras sentaram-se à mesa e os Munduruku, antes de iniciar a negociação, entoaram um canto tradicional, assim como fizeram algumas horas depois os povos do Baixo Tapajós.

Alessandra Korap, em pé no centro da sala, cercada por lideranças, abriu os questionamentos pela manhã ao afirmar que “tonelada e tonelada de soja sai daqui para a China, para os Estados Unidos, para a Europa. Esses acordos não são para os povos indígenas”, declarou. Ela criticou a Ferrogrão, o Marco Temporal e, sobretudo, o decreto 12.600/2025, que, na visão das lideranças, consolida entendimentos alinhados ao Marco Temporal e fragiliza a proteção territorial, abrindo espaço para explorações que impactam os territórios.

A cobrança mais direta, porém, veio na sequência: “Chama o Lula. Revoga essa lei! A voz não é só da Alessandra. É a voz das mulheres que estão aqui e não conseguem falar. São 525 anos de resistência”, reivindicou.

O cacique Gilson Tupinambá, cacique-geral do povo Tupinambá, do Baixo Tapajós, reiterou, durante a audiência da tarde, a indignação com a exclusão e o decreto, afirmando: “Nós estamos numa festa de rato fantasiado de queijo. Essa que é a verdade”. Ele também ressaltou a gravidade da contaminação do Tapajós: “O Rio Tapajós hoje está sendo afetado diretamente com a contaminação mercurial. As crianças estão nascendo com deformação”, lamentou.

O presidente da COP30, André do Lago, também foi confrontado por Lucas Tupinambá sobre o baixo credenciamento indígena. “Não é justo, não é justo que dentro da nossa própria casa nós não pudermos ter acesso a esta COP30, onde lá dentro está sendo discutido muitos assuntos de nosso interesse”. Lucas criticou a presença de lobistas na Zona Azul, questionando: “E por que não a participação dos povos indígenas em massa dentro da discussão?”.

A liderança indígena do Baixo Tapajós expressou a preocupação com os megaprojetos: “Nós somos contra a ferrogrão, nós somos contra as hidrovias. São esses financiadores que estão aí, com esse projeto sustentável, querendo mascarar o Ferrogrão como projeto sustentável, que não é sustentável”. Eles também alertaram que o “Rio Tapajós já está sendo dragado”, denunciou.

Entre os povos do Baixo Tapajós, estiveram presentes na manifestação lideranças Tupinambás, Arapiun, Tapuia, Tupaiu, Saterê Mawé, Borari, além de outros povos como Kokama e Kixará Tapuya, ambos do Ceará.

O que diz a carta entregue pelos Munduruku ao governo

No encontro fechado, sem acesso da imprensa, as lideranças entregaram uma carta do Movimento de Resistência Munduruku Ipereg Ayũ, cujo teor o Portal A Lente teve acesso. O documento exige a revogação imediata do Decreto 12.600/2025, o cancelamento definitivo da Ferrogrão e proteção contra megaprojetos que afetam os territórios.

Na carta, os Munduruku afirmam que o decreto “abre a porteira” para dragagem, derrocamento de pedrais sagrados e expansão de portos privados, transformando o Tapajós em “estrada de soja” e ameaçando “exterminar nosso modo de vida”. O texto ainda cobra o presidente Lula: “Presidente Lula, o senhor precisa ouvir o nosso povo antes de decidir sobre nosso futuro.”

O documento denuncia que o governo federal e o Estado do Pará “não respeitam a Convenção 169 da OIT” ao avançarem sem consulta prévia sobre os projetos de infraestrutura. A carta conclui: “Não há redução do aquecimento do planeta sem a presença dos povos indígenas.” Tanto o povo Munduruku, como os povos do Baixo Tapajós exigiram uma agenda com o presidente Lula.

Respostas oficiais e compromissos

Diante das duras críticas, às ministras e a presidente da FUNAI buscaram contextualizar as ações do governo, principalmente em relação à demarcação e à COP.

Marina Silva defendeu a agenda da conferência, garantindo que a COP30 é um espaço de busca por recursos internacionais para a defesa da Amazônia e que não há ameaças à soberania ou aos direitos dos povos nos debates internacionais. “Na COP30, ninguém está negociando absolutamente nada com relação aos direitos de vocês nos seus territórios, no seu país, dentro do Brasil. A agenda da COP-30 é uma agenda positiva para os povos indígenas”, declarou a ministra.

Ela enfatizou o papel da COP em garantir mais atenção e apoio financeiro: “O que está acontecendo aqui e é o motivo pelo qual o presidente Lula queria fazer na Amazônia, é trazer o mundo para a Amazônia para que o mundo entendesse quantas coisas têm que se fazer ainda para defender os povos e o território da Amazônia”. O fato de vocês serem os guardiões dessas florestas abre espaço imenso para cooperação internacional, para apoio de outros países. E é isso que nós estamos procurando na COP30″.

Por sua vez, a Ministra Sonia Guajajara reconheceu que a estrutura da COP é “excludente, sempre foi excludente”, mas destacou os avanços na participação. Para ela, “a COP30 já está marcada como a COP que mais abriu a participação para povos indígenas”.

Sonia citou o aumento do número de credenciais para a sociedade civil brasileira, com 400 credenciais indígenas, representando um terço das vagas. A Ministra também esclareceu que as pautas dentro da COP são “gerais, globais” e não podem levar problemas específicos de um país, como os internos do Brasil, que devem ser resolvidos domesticamente. “Em 30 anos, é a primeira vez que o tema indígena está sendo tratado. E não está sendo tratado para destruir”, declarou.

Indígenas seguirão reivindicando durante a COP30

O bloqueio dos Munduruku e povos do Baixo Tapajós e a rapidez com que o comando da COP e duas ministras se deslocaram para negociar mostrou o peso político do ato. Mas também expôs o dilema do Brasil: o país tenta liderar a agenda global do clima enquanto avança com hidrovias, ferrovias e corredores de exportação sobre territórios indígenas.

“Se nós não formos atendidos, nós vamos continuar com a nossa reivindicação, com os nossos manifestos até o final da COP, porque nós precisamos ter uma visibilidade que nós possamos ser ouvidos”, finalizou Gilson Tupinambá, prometendo novas intervenções indígenas na COP30 caso as demandas continuem sendo ignoradas.

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