quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Retratos poéticos do espaço

Paisagens nas cores da fotografia infravermelha de Helder Faria

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Texto: Bruna Obadowski e Edelson Santana
Fotos: Helder Faria

Susan Sontag, umas das autoras que elevou a fotografia ao plano da reflexão conceitual, já dizia em 1973 que fotografar se tornaria um passatempo tão difundido quanto sexo ou a dança. Para ela, como toda arte de massa, a fotografia não seria praticada por todos como uma expressão artística. Para além da questão ontológica acerca da essência, artística ou não, da fotografia, André Rouillé  sugere pensa-la partindo das particularidades de cada fotógrafo ao invés de nos fecharmos às generalidades.

Assim, na imensidão de fotografias cotidianamente publicadas, muitas se revelam fruto de uma outra linguagem, de olhar sensível e altamente potente ao qual raramente passaria despercebido aos nossos olhos. Não seria, portanto, pretensão de minha parte lembrar-me de Manoel de Barros ao ver a luz escrita por Helder Faria “melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário”. O contrário aqui, seria, portanto, a possibilidade que ele nos proporciona com seu trabalho em visualizarmos uma plasticidade impar na fotografia.

Foto: Abner Faria

Helder trilhou um bonito caminho na fotografia, até decidir torná-la sua profissão. Ao lado de seu pai, fotógrafo amador, teve o ensejo de crescer arrodeado por tantas fotos e tantas câmeras. Da Love a Olympus Trip até chegar a sua primeira câmera, uma Sony 3.2 Mp que dez anos depois daria espaço a uma DSLR, esta que se tornaria motivo de muito estudo, reflexão, conhecimento e pesquisa, desaguando há dois anos na fotografia infravermelha. Para ele, fotografar em infravermelho expandiu as possibilidades de expressão do seu objeto de interesse, a natureza. Nela, ele pode compartilhar como vê e como sente seu entorno, mostrar a existência de várias formas de ver o mundo, este que pode ser expendido de forma diferente para cada um.

Helder, que já passou pelo Salão Jovem Arte, Museu Nacional de Brasília, teve seu trabalho publicado pela National Geographic e no livro “Anfibi la storia degli animali a fumetti” na Itália, agora nos presenteia com sua série “Retratos poéticos do espaço”, uma possibilidade de contemplarmos as paisagens do cerrado nas cores singulares da fotografia infravermelha.

Ainda que o fotógrafo tenha diante de si a imensidão da paisagem, a imagem desse espaço será por ele registrada a partir de um olhar subjetivo e particular. Os elementos da realidade vão estar na fotografia, mas reelaborados pela visão única daquele que os apreendeu. A recriação do real é própria da arte; por mais realista que pareça, qualquer retrato será sempre o produto da experiência individual de quem guardou o momento. Também faz parte do ofício de artista selecionar o cenário que vai servir de matéria e tema de sua poesia. A vegetação do Cerrado, a Chapada dos Guimarães, o Morro de Ferro, a Barra do Pari ou a velha Cuiabá… aos olhos que veem, o local passa a ser universal, um mundo vasto e sem muros.

Dimensionar a vista até que ela atinja as paisagens mais próximas. Desautomatizar o olhar para que ele volte a enxergar o que ali desde sempre esteve. Alcançar o ínfimo para levar a alma ao nível da essência… Só assim será possível ver aquilo que está em toda a parte: a arte lenta e constante das denudações esculpindo as pedras; a amplidão dos horizontes, que ora se mostram e ora se escondem, comandados que são pela incidência da luz; e a grandeza das perspectivas em que terra e céu se unem para propagar sem limites as suas cores reinventadas.

É preciso conhecer os lugares para que eles possam ser guardados. Iluminar a paisagem e ser por ela iluminado. Manter definitivamente a imagem em um espaço escuro da mente e assim poder para sempre rever cada detalhe num simples fechar de olhos – como uma fotografia feita e não revelada e que, por isso, é somente sua.

Desvelar outras cores exige de quem vê a atitude da parada. Contemplar a paisagem para apropriar-se da imensidão. Antes disso, porém, é necessário ter a percepção de como a beleza se dispõe e um ânimo renovado até alcançar o ponto propício para a mira. Saber tomar a distância necessária para, enfim, sentir-se mais próximo daquilo que se quer ver em plenitude – é essa a arte do ofício. E quem a domina tem para si a vastidão de um mundo sem janelas ou portas.

As estradas são as formas concretas que tomam os caminhos traçados pelo mundo. Elas são veredas que mostram a vida em sua realidade: só pedra e pó de um chão pisado e, por vezes, sem cores… Já a grandeza do sertão reside no interior de cada um. Os olhos ignoram as porteiras para que eles possam guardar, preencher de sentido e, por fim, dar a dimensão possível ao espaço contemplado. A despeito da inexatidão quanto ao tamanho real do universo, o certo é que qualquer imensidão de espaço por alguém descrita foi antes construída pela percepção sensível do seu olhar.

As igrejas seguem guardando os velhos tempos no cenário dinâmico de uma cidade em transformação. E há metafísica bastante nas fachadas das catedrais. A religiosidade do lugar acaba por se confundir com um esforço coletivo de se preservar as tradições. Cada festa de santo tem em si os costumes centenários das comunidades: ladainhas, cantos e rezas, comidas e bebidas ajudam a compor o patrimônio imaterial. E cada templo cujas portas se abrem para a oração expõe também a história de um povo, não raras vezes, história de sacrifícios. Tem que subir os morros para estar mais perto do céu, exercício esse que faz parte da ascese de qualquer penitente. Mas chegando lá no alto, à descoberta do milagre em profusão de cores, prova-se e comprova-se a fé na providência divina ao ver os joelhos se dobrarem numa inevitável veneração de imagens.

Para acompanhar o trabalho de Helder Faria no instagram @helderfariainfravermelho
Lembrando que as fotografias estão disponíveis para a venda e podem ser acessadas Aqui!