sábado, 21 de julho de 2018

Pelos confins de Mato Grosso

O livro Andanças é uma primorosa obra de Rodrigo Vargas e José Medeiros

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Texto: Ahmad Jarrah
Fotos: José Medeiros

Percorrer as páginas do livro Andanças é se embrenhar nas profundezas de Mato Grosso, conhecer a vida nesse vasto estado que ainda é despercebida para a maioria dos mato-grossenses. A cada história narrada, o sentimento de atemporalidade brota de um primoroso texto de Rodrigo Vargas, acompanhado do sensível olhar de José Medeiros.

A obra apresenta um robusto conteúdo que conduz o leitor através de aprofundadas reportagens em torno de temas que marcam o cotidiano das cidades em todas as regiões do estado. A combinação de texto e imagens é um deleite para a leitura, e a sensibilidade de uma visão mais humana a respeito dos fatos é um oásis em meio a tanta superficialidade e clichês na configuração do jornalismo regional atual, muitas vezes pautado em releases, assessorias e imediatismo sensacionalista.

Se ainda hoje é um desafio alcançar os longínquos rincões de Mato Grosso, mesmo em caminhonetes traçadas, explorar as estreitas estradas de terra e os extensos atoleiros a quase duas décadas atrás, a bordo de um fiat uno, é um grande feito de uma dupla de jornalistas destemidos e dispostos a se entregar para as histórias e compartilhá-las. É difícil, ao ver as fotografias de José Medeiros, conceber que elas foram produzidas há vinte anos utilizando equipamentos analógicos “tirava uma foto e só via o resultado depois de revelado o filme”, conta o fotógrafo ao narrar as transformações tecnológicas da fotografia nesse período. As fotografias foram digitalizadas do cromo, e resolvemos publicá-las com as bordas a fim de uma aproximação do leitor com o método que elas foram concebidas. O trabalho de José Medeiros desloca a importância do suporte tecnológico para a construção de um olhar mais humano e sensível, trata-se mais de afiar a percepção do que apertar um botão.

Quando nos debruçamos sobre as pautas abordadas nas narrativas, percebemos o quanto elas se fazem presentes nos dias de hoje. As disputas de terra e madeira na região de Colniza e Guariba, que testemunhou recentemente uma chacina de nove trabalhadores rurais. A luta pela ampliação das zonas de reserva ambiental para a proteção de comunidades tradicionais que até hoje fazem a coleta de borracha e castanhas próximo à fronteira com os estados do Amazonas e Rondônia.

A saga das irmãzinhas, que mesmo tendo frustrada sua iniciativa de evangelização, do ponto de vista institucional da igreja, é uma impressionante história de resistência que transformou conceitos da antropologia e etnografia e teve uma impactante dimensão afetiva e cultural com os povos indígenas.

A sustentabilidade das famílias garantidas pela pesca e caça, as casas de pau a pique, as lendas e mitos, a febre do ouro com curiosos garimpos sub-aquáticos, sonhos que se encerram e outros que se iniciam. O combativo e humilde bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, humanista que tanto comungou com causas sociais e na defesa dos povos tradicionais da floresta. A vida do último Guató em meio aos seus mais de 140 companheiros felinos. Todas as narrativas fogem do senso comum e dos clichês e são uma bela demonstração do fazer jornalístico. O livro está disponível para compra no site da editora e lá também é possível ler um trecho.