Empatia, coronavírus e o capitalismo predatório

Obsessão do mercado pelo lucro e letargia do Estado colocam em risco a vida humana

Texto e fotos: Ahmad Jarrah

As ruas já não são mais como antes, tudo anda tão frio. Há uma atmosfera distópica suspensa no ar. Pela erma cidade sujeita à uma cenografia da ausência, que esvazia as ruas e os corações, perambulam velhos protagonistas, os poucos sujeitos a ocupá-las.

Nessa ruína social que se desenha pelas paisagens urbanas do Brasil, trabalhadores sem escolha se esforçam perante fragilizadas leis trabalhistas, e a população em situação de rua segue vulnerável sem qualquer assistência do Estado.

É urgente que os modelos políticos e econômicos de gestão que implementam os processos civilizatórios priorizem a vida humana acima de tudo, que possam amparar os trabalhadores que estão em um cotidiano incomum, sem acesso à renda social, sobretudo em tempo de pandemia.

Há uma dicotomia paradoxal proposta pelo capitalismo, que coloca em xeque a vida humana:  trabalhar e se expor ao vírus ou se proteger e não ter renda, sequer para se alimentar. É preciso políticas públicas efetivas, que vão além do insuficiente abono de R$ 200 por mês sugerido pelo Governo Federal, que desmontou todos os programas de assistência social. Sabemos que o mísero valor jamais irá tirar os trabalhadores formais e informais das ruas, mantendo-os expostos com grande risco de serem infectados e tornarem-se vetor de contaminação, quando não vítimas.



É urgente também a implementação de políticas públicas de assistência social visando promover a saúde, segurança e bem-estar da população em situação de rua, uma das mais fragilizadas em sua condição econômica.

Desempregados, sem renda e sem casa, seguem vagando pelas ruas em busca de solidariedade, empatia e compaixão. Boa parte sofre de comorbidades, pela própria situação de fragilidade em que se encontram. Sem um porto seguro para se proteger, com laços familiares muitas vezes inexistentes e a pandemia do coronavírus chegando ao Brasil, atividades cotidianas como se alimentar e limpar se tornaram tarefas árduas. As poucas moedas arrecadadas no semáforo mal dá pra se manter.

Se já existia o preconceito e o distanciamento da sociedade em relação às pessoas em situação de rua, agora são poucos os carros que circulam pela cidade, muitos de vidros fechados. Não fosse pelo apoio de algumas instituições da sociedade civil, formais e informais, a tragédia se anteciparia ao Covid-19. 

A Prefeitura de Cuiabá publicou um decreto que, entre outras medidas, garante a distribuição de 100 marmitas por dia, o que é muito pouco. Frente à inércia do Poder Público, o Fórum de População de Rua de Cuiabá intensificou uma campanha de arrecadação de doações, que serão revertidas em mantimentos e produtos de higiene, em um momento em que até as igrejas suspenderam as atividades de entrega de alimentos.

A forma irresponsável com que vem sendo tratada a pandemia de coronavírus no Brasil pelo inepto Presidente da República Jair Bolsonaro, somada às prioridades que Estados e Municípios vem dando a outros setores, indica que se depender do poder público, a população em situação de rua será deixada a sua própria sorte, como sempre estiveram, e os trabalhadores não terão nenhum amparo, a não ser a obrigatoriedade de retornarem aos seus postos. Essa crise global demonstra que o Capitalismo é o vírus mais agressivo que já se espalhou, e não há outro antídoto senão a empatia, para enxergar o outro que vive além das nossas paredes.

Quem quiser ajudar financeiramente o Fórum pode doar pela conta:
Maria Aparecida de Oliveira
Banco do Brasil
Ag. 2373-6
C/c 2640-9

Quem quiser participar ativamente na entrega destes alimentos pode entrar em contato com o Fórum pelos telefones: (65) 99638-3870 / (65) 98161-0907.

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