quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O que nos faz floresta?

Uma denúncia forjada em uma poética da contemplação

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Texto: Stênio José Paulino Soares
Fotos: José Medeiros

Quando deixei Cuiabá naquela manhã de verão para sobrevoar algumas poucas propriedades privadas durante três horas e meia, eu já havia lido diversos relatórios e estudos acadêmicos sobre a questão agrária e os povos indígenas. Mas ao chegar em Juína, recebido pelos funcionários da FUNAI, quando fui informado que uma equipe da Rede Globo já estava acampada no território indígena dos Enawenê-Nawe, tive em mim uma sensação particular que distinguia meu ofício de etnólogo de qualquer especulação jornalística. Em seguida, tomamos um carro por mais uma hora de viagem e, ao cair do sol, paramos no meio da estrada, onde só conseguíamos enxergar o que era iluminado pelo farol, foi quando abandonamos o veículo e pegamos um barco às margens do rio. Quando as retinas já se adaptavam àquele breu, sobre nós um céu limpo e estrelado, víamos o Rio Juruena correr vida ao nosso redor, rolando entre as encostas, roubando palhas secas deitadas nas margens e formando vagas que se fugiam rapidamente de nós. Foram oito horas de travessia contracorrente, guiados por um líder Enawenê que nos apontava os recantos das margens, dava-lhes nomes e contava-nos as histórias daqueles lugares. E por acreditar que éramos amigos e por que fomos convidados a visitar sua morada, ele falava mal dos fazendeiros que derrubavam árvores e ocupavam suas terras, matavam os peixes do rio e lhes ameaçavam de morte. Tudo o que vivi com aquele povo hoje nutre minhas negras memórias, memória das águas; tudo o que vi e tudo o que não vi tornaram-se registros pelas lentes de José Medeiros: o fotógrafo desenhou com a luz e o contraste sua memória do mato, ou daquilo que nos faz floresta.

Quando consultei o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a quem respondia como consultor da Unesco em 2012, sobre a possibilidade de ser acompanhado por um fotógrafo para o registro do ritual yãkwa, argumentei que um profissional , sensível à experiência que o etnólogo e o povo Enawenê-Nawê compartilhariam naquela ocasião, poderia dar uma qualidade à fotografia. Quando encampamos a parceria neste projeto, a única recomendação que fiz à Medeiros foi que respeitássemos a autorização dos indígenas sobre qualquer registro que se faria. A experiência profissional e a sensibilidade do fotógrafo eram tamanhas que, imediatamente quando nos submergirmos à vida na floresta, a presença da câmera de Medeiros não escapou das atribuições semânticas que lhe qualificavam para o pesquisador e para os indígenas. Sua presença, por definição ou por excelência, foi paulatinamente deixando de ser estranha na aldeia, na medida em que aquele homem entendeu os códigos sociais e salientou-se da sua condição de estrangeiro naquele território, reduzindo a distância entre o eu e o outro. Não quero com isso afirmar uma inobservância do caráter que distinguia o fotógrafo estrangeiro daquela sociedade, mas a condição de estranheza foi subvertida tanto por Medeiros quanto pelos Enawenê: os olhares trocados desde com os enawaretese (crianças) até com o ihitariti (mais velhos) se comunicavam construindo laços afetivos e o que antes tivesse sido negação tornou-se o reconhecimento da “humanidade” do outro… Medeiros tornava-se floresta.

Parte daquela cordialidade se fundamentava pelo convite que a liderança Enawenê-Nawê me havia feito, para que acompanhasse a pesca do peixe, parte fundamental do ritual yãkwa, que tanto é a oferta aos espíritos iakayretí quanto parte da alimentação da aldeia. Com a instalação de pequenas centrais hidrelétricas (PCH) e centrais geradoras hidrelétricas (CGH) na bacia do Rio Juruena, alterou-se a dinâmica bioecológica do ambiente aquático na região do território indígena dos Enawenê-Nawê, comprometendo diretamente a realização do yãkwa que é registrado pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil, assim como foi registrado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial em Necessidade de Salvaguarda Urgente. Nesse contexto, não estávamos na floresta em uma condição de oposição aos Enawenê, mas com “personalidades submersas” que nos atribuíam um novo status: estávamos no limiar do que se poderia considerar entre o estranho e o amigo.

Foi nesse contexto que eu pude ver acontecer um dos registros contemporâneos mais interessantes dos povos da floresta. E se o antagonismo teórico identidade x alteridade perseguiu por muitos anos minha formação de cientista social, este me parece ter sido questionado na linguagem fotográfica de José Medeiros, com quem experimentei ousar transbordar a teoria social em um conhecimento visual, mergulhar nas águas estranhas do ser-em-si e do ser-no-mundo e conseguir respirar num tempo quando, de uma denúncia forjada em uma poética da contemplação.

Outros 500

Antonio Sodré
Quinhentos anos de invasão
Quinhentos anos de destruição
Ainda nos pedem pra fazer festa
Festa pra floresta destruída
Festa para os rios já sem vida
Festa para pessoas excluídas
Guerreiros tombaram
Guerreiros morreram
Florestas desapareceram
Festa pra que?
Festa por que?