A arte ribeirinha

Texto: Bruna Obadowski
Fotos: Ahmad Jarrah e Bruna Onadowski

Sentada na porta de casa, a naturalidade com que Dona Alice observa a movimentação que aflora na rua onde mora, chama a atenção. Ela pouco parece se fazer surpresa com o fluxo de sons, pessoas e carros que se desponta próximo ao horário do almoço.

A rua é fluidez de tradição, cultura e turismo que se misturam em São Gonçalo Beiro Rio, comunidade ribeirinha que, chegando aos seus 300 anos, chancela o pluralidade das expressões da cultura de raiz.

Alice, como uma boa cuiabana, nos recebe em sua casa com hospitalidade característica. Com pouco tempo de prosa e muitas histórias, explicou todas as etapas do processo de produção da cerâmica, barro que toma forma de arte em suas mãos desde criança.

O que parece se tratar de um processo simples e despretensioso, começa a mostrar-se belo já em sua produção, que se estende a longos dias com uma graciosidade sem igual.

Nascida na comunidade, ela se afeiçoou à cerâmica aos dez anos de idade, com os ensinamentos de sua mãe. Alice é daquelas ceramistas que coloca a mao na massa e maneja com perfeição todos os traços da peça. Hoje, é a mais experiente ceramista da comunidade, “não e fácil, é demorado, precisa gostar”.

Não faz rodeios para dizer que é a ultima da família a se dedicar à cerâmica. Suas filhas e seus netos seguiram por outros caminhos, alguns mais distantes da beira do rio. Nas paredes, retratos pendurados dão um tom intimista à sala, onde as fotografias tomam espaço para narrar sua história numa densa descrição visual.

Alice nos leva a conhecer os espaços reservados à confecção de seu artesanato. Com dedicação, ela expressa o carinho pela prática e seu cuidado na lida com as peças.

Casada com Dalmi, companheiro de longa data, ele a ajuda e faz companhia nos dias de labuta. Dalmi, durante muito tempo, subia o rio de canoa em busca da argila extraída nas suas margens, hoje comprada com mais facilidade. Sem titubear, ele participa ativamente do molho, da sova, da queima e limpeza das peças.

Do barro à arte

Ja habituado com as etapas, Alice sabe de cada detalhe e acompanha minuciosamente todo o manejo com o barro, desde sua chegada à sua saída para a Casa do Artesão da comunidade, onde ela expõe as peças prontas para a venda junto com mais outros seis artesãos. Há alguns anos, eram em quarenta.

Após a chegada do barro, transportado rio acima nas canoas até a comunidade, ele é quebrado e separado. A parte mais grossa passa na peneira, depois se junta com o barro mais fino ficando de molho por um ou dois dias. “Se deixar uma semana, fica melhor ainda pra trabalhar”, lembra Alice. Após isso, a cerâmica é modelada, pintada e, finalmente queimada, tudo em companhia de Dalmi.

As peças são reunidas até uma boa quantidade e só depois de pintada é levada ao forno a lenha. A queima lembra um rito familiar. Uma expressão de cumplicidade e amor pela arte.


Os dois baldeiam as pecas para Adelina que, com muita calma e jeito, organiza as peças em bacias de cerâmica dentro do forno. A queima é feita durante um dia inteiro. No dia seguinte, elas já estão prontas para seu curso final, chegar até os lares.

De olho lá na frente

Em certo momento, mesmo com ar descontraído, dona Alice revela preocupação com a continuidade da tradição do artesanato.

Além de ter diminuído consideravelmente o número de artesãos em atividade na comunidade, de quarenta para sete, não há interesse por parte dos mais jovens na continuidade do trabalho. “É muito trabalhoso, às vezes demora pra vender, e os mais novos preferem o dinheiro certo em algum emprego”.

Apenas uma filha dela trabalhou durante quatro anos fazendo artesanato, mas trocou por outro trabalho. Alice acredita que o artesanato só não vai acabar por causa do torno, que tornou o processo mais mecanizado. Porém, de qualquer forma é necessária a intervenção humana no acabamento e pintura. Ela problematiza que a produção em série tira a essência do trabalho artesanal e se torna apenas mais um produto comercializado, sem uma base comunitária.

Não é possível se levar em consideração somente a peça enquanto produto final, mas sim o processo, toda riqueza cultural da tradição, exatamente o risco que se corre. Vislumbra mais pelo menos dez anos de continuidade dos atuais artesãos, mas não se arrisca em apontar o futuro do artesanato em São Gonçalo Beira Rio.

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